segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Encontro não marcado.
domingo, 2 de setembro de 2012
Sobre o que não se diz.
Certas coisas são inconfessáveis. Coisas que você acredita, mas a
maioria das pessoas não; coisas que você jura que não sente mais, mas sente;
coisas que, se expostas, revelariam uma face hostil, mesquinha e extremamente
fraca que fingimos não existir em nós mesmos. Algumas coisas são
definitivamente inconfessáveis... Mas nada que seja mal resolvido ou
manifeste alguma inquietude. São só dores que não deveriam mais doer, e que não
podem ser compreendidas isoladamente porque, na verdade, já não são mais dores; são
problemas que já deveriam estar sanados; são felicidades que já deveriam ter
acalmado, amores que já deveriam estar em paz. São coisas que perderam os argumentos,
o prazo de validade, o sentido, a voz. Coisas para as quais já não se deve mais
despender tempo, nem energia, pois são apenas presenças inconseqüentes de um
nada que insiste em
existir. Coisas que devem ficar em silêncio, como se fossem
uma condição permanente do nosso corpo ou da nossa alma, indissociáveis. Adquiridas ou inatas, não importa... Coisas que são e só. A certeza impressa nelas talvez seja seu principal trunfo. Elas se fazem lembrar
vez ou outra, mas não incentivam nenhuma mudança, pois sua inércia contagia
cada centímetro da nossa existência. São essas coisas que fazem perder o olhar quando escapam desse
cotidiano que não tem tempo pra elas, que surgem pouco antes do sono, mas se
dissolvem no torpor que logo nos acomete. São aparições velozes e efêmeras e
merecem uma atenção compatível; são aquelas coisas que qualquer toque de
telefone faz voar, mas que sempre estão por perto, com seus fiapos presos nas
garras que insistimos em afiar, num movimento inconsciente e suicida da nossa
memória – esta traidora sempre perdoada. Essas coisas inconfessáveis são
ambivalentes e tão nossas, que, ainda que não ocupem grandes espaços, nos
faltaria um pedaço caso não fossem mais. Deixemos sê-las, somos assim também.
domingo, 26 de agosto de 2012
"Please, don't stop the music."
Outro dia eu conversava com um
amigo que entende muito de música. Ele falava com propriedade dos arranjos,
notas e se referia ao “jogo da velha” como sustenido, numa linguagem técnica
magistral. Senti-me a mais esdrúxula das criaturas, mal cabia na minha vexaminosa
ignorância musical. Como poderia eu, dizer-me uma apaixonada por canções, se
tenho duas mãos esquerdas que abortam todas as minhas tentativas de aprender a
tocar um instrumento, e não faço ideia de quantos discos compõem a discografia
de Chico Buarque? Como se pode ser uma
pessoa pseudo-culta sem saber nadica da primeira arte? Logo da primeira? Pensei
em matricular-me em uma escola qualquer que me fizesse entender um pouco mais,
já que a música, como poucas coisas nesse mundo, é capaz de evocar de maneira
singular a emoção humana, fazendo-nos sentir coisas para as quais ainda não
sabemos dar nome. (Aliás, os efeitos terapêuticos da música já são velhos
conhecidos da Psicologia.).
A conversa só mudou de rumo
quando ele começou a criticar alguns gêneros musicais. Os mais populares
tornaram-se alvo de adjetivos incompatíveis com as sensações agridoces e
poéticas que a música faz nascer. Afinal,
quem decide o que toca o outro? Quem decide que aquilo que te faz sentir até os
ossos é bom ou ruim? Música é música, certo? Eu, por exemplo, não gosto de heavy
metal, não me faz sentir nada além de dor de ouvido... Se ao menos me fizesse
sentir algo... Ainda que me fizesse sentir coisas horríveis, mas que me fizesse
sentir! Alguns tipos de música realmente, para mim, são mudos. Para mim! E eu
sou tão pouca gente. Música não faz escala na razão, ela tem conexão direta com
o coração e com isso, meu amigo, cada um que cuide do seu. Mesmo aquelas com
letras bobas, clichês e afins, se nos roubarem por um instante de uma realidade
indigesta, por que não? A gente tem que aprender a se deixar invadir pela
ambivalência que a música provoca, sem julgamentos, sem pré-conceitos. De
Beatles à Jorge e Mateus, todos têm algo a dizer. E dizem lindamente, ainda que
a gente não entenda uma palavra sequer, como quando se tornam belas as músicas
estrangeiras. Até os funks, vejam só, me estampam de risadas e desfazem algumas
rugas de tensão na minha testa... Quem é que vai me dizer que isso não é
válido? Hoje penso que entender de música é bastante simples. É entender que não
precisa ser visceral como Edith Piaf, nem tão genial como Cazuza e Russo, nem poética
como Toquinho e Vinícius... Se me fizer bater o pezinho, deixar minhas pernas
nervosas, meus olhos marejados ou minha boca aberta, tá valendo. Música é
permissão, é encaixe e voz do que não precisa ser dito. Música também é
ridícula, como tudo que é demasiado intenso. Música é quando a ideia de um
monte de gente se encontra, às vezes, pra não dizer nada. E para entender de
música, basta saber que ela não precisa fazer sentido para fazer sentir.
terça-feira, 31 de julho de 2012
"Fica muito bem no cinema..."
Sou romântica. Uma ré
confessa de crimes como acreditar no amor dos filmes; querer demonstrações
públicas de afeto e planejar encontros que pudessem render um punhado de letras
adocicadas. Não me julguem, eu juro que estou aprendendo... Consigo, por vezes,
até vestir minha fantasia de mulher-moderna-independente-que-adora-ver-um-sutiã-queimando.
Balela. Aprendi a ler com Machado de Assis e José de Alencar. Os vi tecendo
descrições desavergonhadas, num ridículo e visceral mergulho amoroso para os
quais eu lançava furtivos olhares invejosos. Como era de se esperar, aprendi à
duras penas que eu não era Lucíola, nem Capitu,(embora traga os olhos de
ressaca, às vezes) e não percebia meus romances como literários ou cinematográficos,
ainda que, na minha histeria, eu os quisesse dramatizar. O problema é que
apesar do peso das experiências, das leituras modernas, do facebook e de toda a
sorte de facilidades em que fui afogada, algumas coisas não consegui mudar. Eu
sei que já passei da idade, vai... É ruim principalmente porque costumo
fazer dos meus desejos “ideais” maiores do que as possibilidades “reais”. Mas
venho aprendendo, como eu disse, e a parte boa é que não precisei desistir de
querer viver grandes histórias... Bastou apenas enxergar as minhas histórias
como grandes. Entendo agora que ainda que não haja uma claquete pra finalizar
cada flerte, eles todos são dignos de filmes, pois contam anonimamente as
histórias de gente que só quer sentir um pouco mais. Sentir com a pele, sentir
com o coração, com a cabeça... Pouco importa. É melhor que fazer guerra. Aquele
beijo desajeitado, às vezes embriagado, mas cuidadoso e respeitado pode ser sim
um grande beijo. Afinal, se “viver é melhor que sonhar” eu ainda não sei, mas
que pode ser igualmente belo, não tenho dúvidas. Histórias de amor serão sempre
histórias de amor; vezes trágicas, vezes cômicas, vezes insossas mesmo, vezes
apenas histórias. Mas ainda que não aconteça nenhuma descrição desavergonhada e
ridículos e viscerais mergulhos amorosos, a crítica não pode ser ruim quando
se trata de um genuíno retrato da realidade. Realidade que, com um pouquinho de
doçura e leveza, pode, também, se tornar digna de Oscar.
domingo, 10 de junho de 2012
"Enquanto o amor não vem"
Se você abriu o texto na esperança de ver uma crítica sobre o livro de Iyanla Vanzant, perdeu a viagem. Primeiro porque seria muita pretensão minha fazer uma crítica à qualquer tipo de obra. Segundo porque tenho o livro, ele me foi emprestado há alguns meses, mas eu não consegui ler. Parece bom e de grande (auto) ajuda, mas eu simplesmente, sabe-se lá porquê motivo, não consegui terminar de ler. No entanto, o título dele é algo que me atrai e faz refletir. Assim, estava eu numa dessas conversas tragicômicas com uma amiga: Lamentávamos nossa falta sorte com o amor, maldizíamos nossos ex, endeusávamos homens que não conhecemos, (sempre perfeitos esses danados inexistentes) descrevíamos as mulheres incríveis que somos – vocês ficariam impressionados com a quantidade de predicados que possuímos... na teoria (¬¬). Eis que, obviamente, a conversa rumou em direção à quantidade de coisas boas que estão por aí dando sopa, querendo acontecer se a gente der uma chance. Enfim, coisas para fazer enquanto o amor não vem. São dicas quase sempre falíveis, pois o amor pode chegar e acabar com os planos, ou então nunca vir e a lista se esgotar... Para ambas, 50% de chances de realização. Discutimos então nossas próprias considerações sobre o tema.
O primeiro passo para esperar um novo amor é esquecer o velho. Podemos então começar por aí. A verdade é que todo mundo sempre vem com o mesmo discurso puído: viaje, conheça novas pessoas, divirta-se. Quando se está na fossa, tudo isso soa como um gole de coca-cola gelada e cheia de gás numa garganta ressequida – mas no fundo a gente sabe que o que mata a sede mesmo é água. Ou seja, se há sede de amor, nenhuma viagem para Itália, Índia ou Indonésia dá conta, minha gente. A conclusão que consigo chegar é: enquanto o amor não vem, prepare-se pra ele (isso o livro também diz, logo no prólogo). Mas, veja bem, preparar-se para ele, não é esperá-lo. Minha mãe já dizia: "a água não ferve se você ficar olhando pra ela". Esperar é proibido. Pensar pode. Pense nisso, sim. Se quiser encontrar alguém melhor do que aqueles que já encontrou na vida, você vai precisar ser também uma pessoa melhor. Aprenda com erros antigos. Nada de se expor em rede social quando estiver com raiva, já fiz isso e, dentre tantas outras coisas, é a que mais me arrependo. Depois de identificar quem são seus verdadeiros amigos, ouça-os. Fique perto de gente que faz bem. Entre em coma alcoólico se quiser, será bom pra você aprender a nunca mais fazer isso. Permita-se sentir. Fique triste. Fique com raiva. Deseje a morte de alguém, se preferir. Mas só por um segundo, assim Deus vai saber que você só está dizendo isso porque está chateado e é da boca pra fora... E a polícia não precisará ser acionada. Enquanto o amor não vem, duvide dele, mas não diga à ninguém. Não há nada mais patético do que alguém dizendo: "eu não acredito no amor". Ah, vá? Ranzinza desse jeito não há amor que queria chegar mesmo. Amor existe e sempre vai existir. Não culpe-o por não vir com os confetes e teatralidade que você gostaria, não culpe-o pelo seu dedo podre ou instabilidade emocional. A imperfeição do amor não anula sua desajeitada existência. Aos pouquinhos o tempo vai, com sua genialidade indiscutível, oferecendo a medida certa às coisas e às pessoas. Se você for inteligente, vai entender o recado. Se não for, ainda não está pronto para amar novamente, e talvez precise de um pouco de (auto) ajuda mesmo.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
E só.
Numa conversa com meu amigo outro
dia, ele comentou sobre uma promoção que uma marca de roupas vai fazer, usando a expressão
“keep calm and carry on”. Se eu não estou enganada, o povo está sendo instigado
a criar algumas variações da frase britânica que foi lançada durante a II Guerra
Mundial, e que quer dizer “mantenha a calma e siga em frente”. As paródias já
existem aos montes e, para nossa alegria, digo, para minha surpresa, (¬¬) já inventaram a maioria das minhas
invenções. Pensei em “keep calm and keep walking”, afinal, o Jhonnie Walker é
responsável por muitas mentes tranquilas hoje em dia… Ocorreu-me também o “keep
calm and kill the bitch”, mas achei contraditório... Para eu ficar “keep calm”,
primeiro teria que “kill the bitch”, e inverter a ordem não é uma opção, ficaria
confuso. O fato é que a pessoa que inventou essa singela frase, que juntou as
palavrinhas assim, tão genialmente, sabia o que estava dizendo.
Essa expressão
foi criada a fim de motivar as pessoas que experimentaram a Segunda Guerra a
seguir em frente, apenas. Acredito que tenha funcionado; e olha que nem preciso divagar muito ou fazer uso de uma pseudo veia
filosófica que corre nesse meu volumoso corpinho para entender isso. Simplificar é o segredo. Gente,
olha só... Eu queria mesmo que o mundo mudasse pra melhor; queria que os
políticos não fossem corruptos; que a natureza fosse mais respeitada; que as
pessoas vivessem em harmonia; queria que “Festa no Apê” nunca tivesse sido
composta; eu queria que a tampa de margarina nunca caísse virada para baixo;
queria de verdade que bons corações nunca fossem partidos; e que o câncer, no
mínimo, não acometesse crianças... Mas isso tudo existe. Existe tanto que às
vezes, só nos resta suportar, só resta ser resiliente. É simples: você pode
lutar e mudar muitas coisas... Outras, simplesmente, não. Não adianta
saracotear, xingar, querer morrer, ter toda a sorte de ataques epiléticos e
ensaiar aquele super drama. É "só" resistir. Pode fechar os olhos se quiser,
ajuda. Se você não for um suicida em potencial, vai sobreviver. Mais dia, menos
dia, o que hoje parece ser o holocausto dando as caras na sua vida, amanhã vai
ser uma memória longínqua de algo que você, mais uma vez, superou. Sério,
aconteça o que acontecer, apenas “mantenha a calma, e continue seguindo em
frente.”
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Silêncio.
"O depósito de nadas" é um nome que tem cabido
perfeitamente pra esse blog, hein? Há tempos não escrevo. Sei que
empaquei cedo, mas não me levem à mal. Não sou adepta a obrigações e,
sinceramente, às vezes é melhor não dizer nada mesmo.
Denunciar-me era um dos propósitos ao criar
esse espaço e assim, a minha ausência aqui também me denuncia. É que eu seco.
Por vezes, olho para as coisas ou para as pessoas, e as vejo exatamente como
elas são, sem nenhuma alça onde minha imaginação possa se pendurar pra fazer cuspir letras. E assim, sem nenhuma constatação extraordinária, enxergando só o
óbvio, só o que não precisa ser dito, me sobra o silêncio ensurdecedor, que
atrofia meus dedos, que bebe toda minha ânsia de escrever, engolindo minhas palavras como se quisesse me proteger de mim; como se
soubesse que, por hora, nada do que eu diga conseguiria ser fiel ao que sinto e
penso. Porque o silêncio é filho de muitos pais e mães. É filho adotivo de “não
sei o quê, não sei onde”.
O silêncio é um grito ao contrário, dirigido pra quem
interessa de fato, voltado pra dentro, como é preciso ser. Eu calo quando estou
feliz, calo quando estou triste, mas, sobretudo, calo quando preciso de
organização, quando nada do que se passa aqui dentro é traduzível... Quando
tudo que se passa lá fora é inenarrável; quando eu preciso saber o que é, pra
poder explicar. Eu calo pouco, mas calo bem. É preciso primeiro entender o que
o silêncio quer dizer, para enfim dizê-lo. O silêncio já pediu pra eu ficar, já
me mandou embora. O silêncio já disse que eu estava certa e, por tantas outras
vezes, que estava errada. O silêncio já me disse que não sabia, ou que sabia
tanto que preferia que eu descobrisse sozinha. O silêncio já disse que me
amava, e já não disse nada. Fica a promessa de que, quando eu tiver sapiência para
legendar esse silêncio que me toma, o faço morrer afogado em novas palavras.
Assinar:
Postagens (Atom)


