domingo, 4 de fevereiro de 2018

Três meses

        Vai fazer três meses que você disse que me amava. Eu queria que fizesse só um dia. Porque quando fazia só um dia eu ainda acreditava. Era bom acreditar porque é disso que a vida é feita: de créditos. 
        Esses três meses duraram muito tempo. Tanto que quase já não lembro do som da tua risada. São doze domingos em que eu poderia ter deixado minha cabeça apoiada entre a tua axila e teu peito. Três meses que eu deixei de impregnar tua camiseta puída com o cheiro do teu próprio sabonete, porque eu nunca usei perfume aí. A lua já mudou de lugar tantas vezes e a Terra já rodopiou por noventa longos dias. A primavera foi embora e outro verão já veio se exibir. 
        Mas só faz três meses, porque teu nome ainda é feito tinta fresca, que mancha todo meu texto. Faz tão pouco  e eu já não tenho medo de você se ler por aqui - não temos mais tempo pra isso. Eu tinha tanto pra me repetir, tanto pra te dizer de novo, mas não quero mais perder o tempo contigo.
      Logo farão quatro meses e tantos mais que devam vir. Eu vou fazer as pazes com as horas, não importa o que eu faça, o tempo só passa quando tem que passar. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Mais dez sessões.

O plano de saúde liberou dez sessões de psicoterapia. Sexta-feira foi dia de Reik, ela precisava reorganizar as energias. Os amigos chamaram pra sair. Fez sol. Dois novos contatos: divertidos, bonitos na medida, inteligentes. Ela deu risada e se distraiu. Seriado novo, roupa nova, um quilo a menos na balança, passaporte pronto... mas aí aquele cara passou por ela, na ida pro trabalho, e ele usava um perfume igual ao teu. Segunda-feira ela vai tentar mais dez sessões.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Depois daquele dia


Desde então, eu não me culpo mais por acordar cedo aos domingos;
Desde então, não preciso mais ansiar por uma semana, um convite bobo pra te fazer, por medo do teu não;
Desde então, eu lamento não ter que chamado pra ir na igreja aquele dia à noite, em que rezei por ti sozinha;
Desde então, eu entendo mais sobre o que eu gosto, e sobre o que eu me acostumo (crescemos juntos, afinal);
Desde então, eu sinto falta de maldizer teu fogão vagaroso;
Desde então, parei de me culpar por ter muitos amigos;
Desde então, eu quero te dizer que consertei o carro (e não foi tão barato quanto você disse que seria);
Desde então, eu lembro de você e meu coração sente diferente - não é saudade, é paz (bom pra gente, né?);
Desde então eu tenho mais certeza de que é preciso falar sobre o que se sente (você deveria tentar);
Desde então, eu me pergunto se você tá vendo o sol que eu vejo (e você adora, eu sei);
Desde então, eu ensaio formas menos egoístas de ver teu sorriso;
Desde então, torço para que me esqueça devagar;
Desde então, ficou mais fácil responder às pessoas se eu vou sozinha ou se você também vai (que cansaço me causava, acredita?);
Desde então não faço poema, porque não dói. Isso não é poema. É um emaranhado limitado (como eu me sentia ser); é uma cartinha ao pós amor que nunca fui. Mas desde então eu quero te escrever; 
Desde então, escolhi não competir. No jogo dos sentimentos, quem começa já perdeu;
Desde então, fiquei aliviada em sair da superfície do meu sentir, ainda que isso tenha te assustado;
Desde então eu tô pra te agradecer. A verdade é que você sabia antes de mim, que eu fico melhor assim, depois de você.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Arranhão

Outro dia arranhei meu pé esquerdo no carro da minha amiga. Ensaiei um pseudodrama encapado de palavrões que não vou reproduzir e finalizei: - "Merda, vai sangrar!" - "Não vai, não. Só vai ficar branquinho, não chega a sangrar. O que é pior." Ela disse, com razão. Algumas coisas precisam rasgar de vez, depurar. Você é meu arranhão branquinho.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tua voz.

          Se resignação tivesse timbre, ela seria a tua voz. Começou comum, como quem anuncia às três da tarde num trabalho que vai até às seis. Depois foi ficando densa, apesar de aguda. Tu pensava enquanto dizia e, portanto, precisou calar. Tu me contou uma história que não queria contar e que eu não queria ouvir. Sei daquele dia que te doeu tanto que foi como se o próprio diabo te pedisse um canto na cama, e ficasse arranhando as tuas costelas frias.  
         Não tive coragem de apresentar meu otimismo, ele seria uma afronta, um deboche. Então eu fiquei com essa minha cara de tonta, admirando a tua coragem, engolindo tua tristeza pra tu sentir menos. Mulher, que escolhas são estas que tu faz com tanta dignidade que te custam alegria? Que agiota esse caminho. 
         O sol tava lá naquela praça, pintando a tua pele, eu sei. Teu sangue foi diluído, e teve aquela gargalhada que expôs toda tua arcada dentária. Os dias não passarão por ti, tu vais beber deles... eu sei, eu sei. A vida é uma obrigatoriedade. Mas, da tua voz... da tua voz eu não esqueço não.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Merthiolate

Passei alguns dias sentindo dor. Física. Cólicas. Não as cólicas habituais. Meu limiar da dor é alto, mas desta vez, tive a impressão de que meu útero se contraia para parir um filho que não existia. Bem por isso, parecia não ter fim - não haveria nascimento, a dor não teria recesso. Eu caminhava contraída e segurava qualquer chance de cruzar as pernas ou ficar em posição fetal. Só queria que parasse de doer. Alguns remédios vãos e chás de mãe me serviam de placebo por alguns instantes. Doía. A dor, tal qual a alegria genuína, te desarma; te faz encontrar novamente a primitividade. A dor é um retrocesso numa escala de evolução em que todos vivem anestesiados. Quando se está com dor, não se faz sala. Foi ali, de bruços pelo terceiro dia consecutivo, que eu me dei conta disso. A dor entristece, fecha a cortina, como uma velha ranzinza, para qualquer sorriso que, teimoso, dê o ar da graça entre um esquecimento e outro. A dor é rival. Era o meu corpo, contra mim. Como se quisesse vingar todas as vezes em que lhe fui infiel. Não duraria para sempre, eu sabia desde que começou; mas eu esqueci disso enquanto ela pulsava e me oferecia uma calma estéril. São seis meses desde que estes dias aconteceram. Não sinto mais daquela forma. Dedico essas palavras a você, que dói agora. Vim aqui lembrá-lo que ela não durará para sempre. Que, por mais que não pareça, você será capaz de suportar. Não há necessidade de diplomacia. Suporte como achar melhor: com histeria ou silêncio. Logo vai acabar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

"Quem já ligou pro vô?"

Vô, que saudade eu tenho de ti, que nunca tive. Das vezes em que você nunca me colocou nas costas pra eu me sentir grande - como você sempre quis que eu fosse.
Vô, não sinto o cheiro do teu chapéu velho, herdado de uma vida que você não tem mais; mas reconheço nele a única prova física de que você um dia teve força nesse corpo arqueado pelo tempo. Não lembro dos teus braços flácidos, que eu arranharia com as minhas incompetentes unhas de papel, enquanto você fingiria não se emocionar. 
Eu sinto falta dos momentos que nunca tivemos; das vezes em que você reprovaria minha tentativa cômica de chutar uma bola, dizendo que é coisa de menino. Sinto falta dos teus pré-conceitos, que eu nunca ouvi, e que hoje nos fariam discutir nos almoços em família... Eles seriam finalizados com a clássica sentença: “esses jovens de hoje tão virados”. Eu nunca deslizei meus dedinhos viçosos nos sulcos da tua pele, e nunca ouvi tua gargalhada cheia de dentes de mentira, ao me ensinar a falar um palavrão. Sinto falta das histórias que você nunca me contou, e falta de fingir que eu acredito nelas. 
Sinto falta de ouvir você dizendo que me ama, no silêncio do teu palheiro.
Eu sempre achei ter sido melhor assim. Não senti tua partida porque você nunca veio. Mas ainda há em mim algo de ti: a ausência. Há esse vácuo no tempo, ladrão de memórias... Memórias que não tive, mas invento todo dia, como forma de te trazer mais perto, onde você nunca esteve.