segunda-feira, 15 de maio de 2017

Arranhão

Outro dia arranhei meu pé esquerdo no carro da minha amiga. Ensaiei um pseudodrama encapado de palavrões que não vou reproduzir e finalizei: - "Merda, vai sangrar!" - "Não vai, não. Só vai ficar branquinho, não chega a sangrar. O que é pior." Ela disse, com razão. Algumas coisas precisam rasgar de vez, depurar. Você é meu arranhão branquinho.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tua voz.

          Se resignação tivesse timbre, ela seria a tua voz. Começou comum, como quem anuncia às três da tarde num trabalho que vai até às seis. Depois foi ficando densa, apesar de aguda. Tu pensava enquanto dizia e, portanto, precisou calar. Tu me contou uma história que não queria contar e que eu não queria ouvir. Sei daquele dia que te doeu tanto que foi como se o próprio diabo te pedisse um canto na cama, e ficasse arranhando as tuas costelas frias.  
         Não tive coragem de apresentar meu otimismo, ele seria uma afronta, um deboche. Então eu fiquei com essa minha cara de tonta, admirando a tua coragem, engolindo tua tristeza pra tu sentir menos. Mulher, que escolhas são estas que tu faz com tanta dignidade que te custam alegria? Que agiota esse caminho. 
         O sol tava lá naquela praça, pintando a tua pele, eu sei. Teu sangue foi diluído, e teve aquela gargalhada que expôs toda tua arcada dentária. Os dias não passarão por ti, tu vais beber deles... eu sei, eu sei. A vida é uma obrigatoriedade. Mas, da tua voz... da tua voz eu não esqueço não.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Merthiolate

Passei alguns dias sentindo dor. Física. Cólicas. Não as cólicas habituais. Meu limiar da dor é alto, mas desta vez, tive a impressão de que meu útero se contraia para parir um filho que não existia. Bem por isso, parecia não ter fim - não haveria nascimento, a dor não teria recesso. Eu caminhava contraída e segurava qualquer chance de cruzar as pernas ou ficar em posição fetal. Só queria que parasse de doer. Alguns remédios vãos e chás de mãe me serviam de placebo por alguns instantes. Doía. A dor, tal qual a alegria genuína, te desarma; te faz encontrar novamente a primitividade. A dor é um retrocesso numa escala de evolução em que todos vivem anestesiados. Quando se está com dor, não se faz sala. Foi ali, de bruços pelo terceiro dia consecutivo, que eu me dei conta disso. A dor entristece, fecha a cortina, como uma velha ranzinza, para qualquer sorriso que, teimoso, dê o ar da graça entre um esquecimento e outro. A dor é rival. Era o meu corpo, contra mim. Como se quisesse vingar todas as vezes em que lhe fui infiel. Não duraria para sempre, eu sabia desde que começou; mas eu esqueci disso enquanto ela pulsava e me oferecia uma calma estéril. São seis meses desde que estes dias aconteceram. Não sinto mais daquela forma. Dedico essas palavras a você, que dói agora. Vim aqui lembrá-lo que ela não durará para sempre. Que, por mais que não pareça, você será capaz de suportar. Não há necessidade de diplomacia. Suporte como achar melhor: com histeria ou silêncio. Logo vai acabar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

"Quem já ligou pro vô?"

Vô, que saudade eu tenho de ti, que nunca tive. Das vezes em que você nunca me colocou nas costas pra eu me sentir grande - como você sempre quis que eu fosse.
Vô, não sinto o cheiro do teu chapéu velho, herdado de uma vida que você não tem mais; mas reconheço nele a única prova física de que você um dia teve força nesse corpo arqueado pelo tempo. Não lembro dos teus braços flácidos, que eu arranharia com as minhas incompetentes unhas de papel, enquanto você fingiria não se emocionar. 
Eu sinto falta dos momentos que nunca tivemos; das vezes em que você reprovaria minha tentativa cômica de chutar uma bola, dizendo que é coisa de menino. Sinto falta dos teus pré-conceitos, que eu nunca ouvi, e que hoje nos fariam discutir nos almoços em família... Eles seriam finalizados com a clássica sentença: “esses jovens de hoje tão virados”. Eu nunca deslizei meus dedinhos viçosos nos sulcos da tua pele, e nunca ouvi tua gargalhada cheia de dentes de mentira, ao me ensinar a falar um palavrão. Sinto falta das histórias que você nunca me contou, e falta de fingir que eu acredito nelas. 
Sinto falta de ouvir você dizendo que me ama, no silêncio do teu palheiro.
Eu sempre achei ter sido melhor assim. Não senti tua partida porque você nunca veio. Mas ainda há em mim algo de ti: a ausência. Há esse vácuo no tempo, ladrão de memórias... Memórias que não tive, mas invento todo dia, como forma de te trazer mais perto, onde você nunca esteve. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Moonwalk

                      Ele dançou moonwalk ao som do John Mayer; mas nunca precisou disso pra chamar minha atenção. Tinha o cabelo amarrado, numa modernidade que contrastava com o jeans puído de quem acabou de sair do ensino médio. Não deveria ter muita idade. Por informação prévia, eu sabia que aquela pequena que o acompanhava no retrocesso dos passos de dança, já recebeu dele alguma coisa que não sei bem o quê era, mas que eu queria pra mim. Os meus olhares furtivos invejavam a fluidez pueril dos dois. Ela era desprendida, como eu desaprendi a ser; possuía o peso do que não lhe foi lapidado, o que a deixava ainda mais leve; e era de um erotismo serelepe, compactado na pouquíssima altura. 
                     Ele era lindo. Não por simetria dos traços, mas porque suava uma bondade intrínseca e uma melancolia escondida, e soava uma risada frouxa, embora contida. A luz verde do bar fracassou ao tentar me confundir e salvar, mas não era necessário. Eu sabia que não caberia naquele cenário, senão na plateia. Aquele viço de quem pouco se preocupa, me deixou anos antes, enquanto eu ia perdendo coisas e pessoas. Eu já havia desistido daquela liberdade sem vergonha. Entrei, resignada, numa forma que, para caber nela, foi preciso cortar pedaços importantes que transbordavam de mim, e cujas ausências ainda se fazem presentes. Aqueles dois, na sua dança, embarraram nas minhas cicatrizes e elas voltaram a latejar. Eu queria voltar a prestar atenção no colega barbudo com quem falava sobre a dificuldade do mercado de trabalho, mas precisava permitir que o rapaz com rabo-de-cavalo que me roubou intenções lascivas, me lembrasse em silencio sobre essa forma em que não caibo mais.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Finalmente.

             Agradeço as vezes em que te fui fiel, embora me causasse uma aguda pequenez orgulhosa, estes tantos momentos em que te presenteei com meus pensamentos. Não me liberto da tua saudade, mas não vejo nela mais do que um peso leve e agridoce de se levar. Resignei-me. Por obrigação, obviamente, e não sem a dor de recusar teu afeto, reconhecendo o cansaço que me causas. Sempre farás das minhas linhas, tuas. Somente em troca do sentir mais incondicional que meu coração já concebeu. Sempre perceberei nos teus rompantes insanos, um pedido de ajuda que eu nunca consegui negar, mesmo quando neguei. O teu segredo me mantém alerta e me manda sinais ásperos de que tu me precisas, ainda que não me queiras. Por essa ligação sutil e profunda, pelo teu gostar fluído, por esse nosso limbo sublime, pela nossa ausência velada, me retiro com dignidade – ainda. Vou-me para que tu entendas todo meu amor. Finalmente.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Sobre quem vai.

                         O barulho enferrujado e antigo que a porta fazia quando ele entrava, só fazia com ele. Os sapatos marchando escada acima, sem ver, ela já sabia que calçavam os pés dele. A discussão pelo controle remoto, cujo fracasso dela sempre era anunciado com um sorriso quase perverso, só existia com ele. O chuveiro pingando daquele jeito, só ele conseguia deixar. Os pães mais branquinhos pra ela, só ele se esforçava pra guardar. Os seus dedos, irritantes, estalando, só o olhar dele sabia calar. O perfume bom, só ele sabia dosar. Os ruídos todos, que ninguém mais faz, os cheiros todos que ninguém mais exala, causam medo aos seus ouvidos e nariz, que nunca entendem de esquecimento.


                      Havia algumas contas a serem pagas e uma breve viagem marcada. Havia comida na geladeira para o jantar e roupas sujas do futebol de domingo, bagunçando a área de serviço.  Havia um silêncio cúmplice no lugar desse deserto mórbido em que a sala se transformou. Por enquanto, não há mais nada. Os sentidos dela ainda se aguçam, mas murcham perplexos com os gritos da ausência. Será assim por enquanto. Não haverá mais brigas, nem esperas, nem divisões. O café vai esfriar enquanto ela gira a xícara com o dedo indicador, a louça vai tomar a pia e a poeira, todo o espaço. Haverá poeira nos livros, no controle remoto, haverá poeira na cama, e no coração. Haverá poeira enquanto não houver tempo suficiente. E talvez nunca haverá.