Às vezes tenho medo. Um medo daqueles de dar medo. Medo de
não haver tempo, porque hoje eu sei que não há. Eu precisaria de mais vidas
para experimentar, sentir, gozar e, por que não, doer tudo que quero. Há tanto
sentido espalhado sem sentido nenhum. Há tantas pessoas que eu gostaria de
conhecer, tantas profissões que eu gostaria de exercer, tanto tudo que eu nada
sei dizer. Há tanta coisa pra saber, tantas ciências pra nascer, tantos filmes,
livros pra ler... Mas não há tempo. Não falo das horas, dos minutos e de toda
essa metodologia pragmática e racional a que o tempo foi submetido. Falo do
tempo. O tempo não é medido. É sentido. As horas, percebemos no azedume de uma
segunda-feira bege. Os meses, posso medir pela caixa do correio, que acusa mais
uma conta a ser paga. Mas o tempo? O tempo eu só percebo quando falta. E ele
não falta na correria cotidiana. Ele falta quando percebo as linhas que
contornam meus olhos, cada vez mais profundas, mostrando um rosto diferente no
espelho numa manhã sonolenta qualquer; ele falta quando vejo que meus sobrinhos
já têm preocupações parecidas com as minhas. O tempo falta quando eu me deparo
com cartas e bilhetes antigos de uma gente que já foi a mais importante do
mundo; falta quando encontro dificuldade em me reconhecer em fotos da infância,
ou quando descubro manuscritos meus onde eram colocadas bolinhas, ao invés de
pingos nos “i’s”. Foi por isso que senti medo. Porque num ato suicida, eu
esqueço que o tempo está aqui, com suas mãos pousadas no meu ombro, e ainda
assim só consigo vê-lo no que já fui, e no medo que tenho de não conseguir ser
tudo que quero. Medo porque, burramente, enxerguei o tempo como quem enxerga as
horas, com certo desdém. Esperei o tempo chegar e agora só o vejo ir. É como se
houvesse uma tarja preta e o trecho reservado para a vivência do tempo agora,
não existisse. Assim, fico sem saber se viver o tempo não será justamente esse
seu esquecimento. Se ele passa, como passa uma pipa perdida, carregando a vida
da gente da melhor forma, sem exigir grandes reflexões; ou se é a gente que tem
que puxar o fio e levar o tempo pra onde achar melhor, tentando fazer caber
nessa fôrma tudo que a gente quer ser, ver, viver. Confesso que eu sempre quis
levar o tempo, mas não consegui muito mais do que deixar que ele me levasse...
Apressado, como ele só sabe ser. terça-feira, 19 de março de 2013
Sobre o tempo (ou sobre o medo).
Às vezes tenho medo. Um medo daqueles de dar medo. Medo de
não haver tempo, porque hoje eu sei que não há. Eu precisaria de mais vidas
para experimentar, sentir, gozar e, por que não, doer tudo que quero. Há tanto
sentido espalhado sem sentido nenhum. Há tantas pessoas que eu gostaria de
conhecer, tantas profissões que eu gostaria de exercer, tanto tudo que eu nada
sei dizer. Há tanta coisa pra saber, tantas ciências pra nascer, tantos filmes,
livros pra ler... Mas não há tempo. Não falo das horas, dos minutos e de toda
essa metodologia pragmática e racional a que o tempo foi submetido. Falo do
tempo. O tempo não é medido. É sentido. As horas, percebemos no azedume de uma
segunda-feira bege. Os meses, posso medir pela caixa do correio, que acusa mais
uma conta a ser paga. Mas o tempo? O tempo eu só percebo quando falta. E ele
não falta na correria cotidiana. Ele falta quando percebo as linhas que
contornam meus olhos, cada vez mais profundas, mostrando um rosto diferente no
espelho numa manhã sonolenta qualquer; ele falta quando vejo que meus sobrinhos
já têm preocupações parecidas com as minhas. O tempo falta quando eu me deparo
com cartas e bilhetes antigos de uma gente que já foi a mais importante do
mundo; falta quando encontro dificuldade em me reconhecer em fotos da infância,
ou quando descubro manuscritos meus onde eram colocadas bolinhas, ao invés de
pingos nos “i’s”. Foi por isso que senti medo. Porque num ato suicida, eu
esqueço que o tempo está aqui, com suas mãos pousadas no meu ombro, e ainda
assim só consigo vê-lo no que já fui, e no medo que tenho de não conseguir ser
tudo que quero. Medo porque, burramente, enxerguei o tempo como quem enxerga as
horas, com certo desdém. Esperei o tempo chegar e agora só o vejo ir. É como se
houvesse uma tarja preta e o trecho reservado para a vivência do tempo agora,
não existisse. Assim, fico sem saber se viver o tempo não será justamente esse
seu esquecimento. Se ele passa, como passa uma pipa perdida, carregando a vida
da gente da melhor forma, sem exigir grandes reflexões; ou se é a gente que tem
que puxar o fio e levar o tempo pra onde achar melhor, tentando fazer caber
nessa fôrma tudo que a gente quer ser, ver, viver. Confesso que eu sempre quis
levar o tempo, mas não consegui muito mais do que deixar que ele me levasse...
Apressado, como ele só sabe ser. domingo, 10 de março de 2013
Pro dia nascer feliz?
Eu sentei na beira-mar e fixei meus olhos cansados no
horizonte. Eu sabia que ele estava ali. Eu sabia que ele viria. Já dava para
ver a ponta das nuvens mais luminosas, premeditando o evento. Eu queria
tanto... Já fazia tanto tempo que aquilo não me acontecia. E era tão bom... No
fundo, penso que ele também me queria ali. São poucas as pessoas que o vêem
daquele jeito. Eu queria vê-lo tal qual ele quisesse ser visto. Eu o aceitaria
como se mostrasse. E só aquele ato de confiança, o ato de enxergar, sem medo,
mesmo que ele pudesse ofuscar, mesmo que não correspondesse às expectativas, só
aquele ato, já era impregnado de um afeto que me lembro poucas vezes de ter
sentido. Mas os minutos foram cruéis e longos e muitos. E, em cascata,
trouxeram uma apatia que tomou o lugar do ânimo. O sono me acometeu. Eu não entendi
o porquê da sua demora, ainda que pudesse imaginar os motivos da ausência de explicações.
Eu o queria muito, mas meu corpo exausto, que já vive em guerras com a minha
mente, mandou-me ir. E eu fui. O caminho me distraiu, reparei nas pedras, nas
plantas, no calçamento. Também eram belos e cumpriram seu papel. Deve ter sido
a mesma distração que ele teve com as nuvens, com o outro lado do hemisfério ou
qualquer outro motivo que construiu o atraso. Nos demos as costas. Quando cheguei
em casa, finalmente pude enxergá-lo enfiando seus feixes de luz pela janela. Já
não adiantava mais. Estávamos em direções opostas agora... Eu talvez fique
sempre na esperança de vê-lo chegar. E ele talvez fique sempre na esperança de
me ver na beira-mar, esperando. Poderia mesmo ter sido um encontro
interessante. Mas não foi. Se ainda fizer sentido, qualquer dia desses, quem
sabe.quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Vem cá, amigo.
Vem cá, amigo. Isso, sem medo. Pode deitar tua cabeça no meu colo. Não te preocupes se as tuas lágrimas
molharem minhas pernas, eu não me importo. Não me importo que teu nariz fique
escorrendo ou que o teu rosto consiga ficar feio tamanha dor que ele exprime.
Eu vou desviar os olhos quando perceber que você está constrangido ao ter
feito um barulho estranho por tanto chorar. Te trago um copo d'água depois, se a gente tiver tempo. Mas vem aqui. Deixa eu te ver, deixa eu saber de ti, deixa eu
te prometer que vai ficar tudo bem, mesmo que eu não acredite. Deixa eu acompanhar, deixa eu carregar um
pouquinho do teu sofrimento enquanto tu choras. Se puder, perdoe meu
silêncio. É que contemplar tua angústia faz nascer outra terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
"Amor inventado"
O que me provoca não sei bem, mas permita-me tentar: Talvez um afetamento afetuoso que te apodera do meu sorriso, te empossa gestor do meu ânimo e da minha obsessão por John Mayer ecoando pelo quarto quando estou sozinha. Talvez um tesão bipolar, que oscila na frequência deficiente com que te vejo. Talvez seja um fraterno sentimento que me faz querer para sempre a tua influência sobre mim e, bem por isso, por essa medida de tempo que não existe, por esse "para sempre" que teimo em desejar à tudo que é bom de sentir... Por isso, meu bem, não te quero personagem do meu amor romântico. Te quero assim, como essa entidade que traz possibilidade do meu controle, que criei do meu tamanho e, portanto, para mim, perfeito. Inventei um sentimento que te faz presente sempre que quero, mas não dói na tua ausência, ou quando outras bocas te bebem. Prefiro a gente assim, criadora e criatura, e só. A paixão estragaria tudo. A paixão faria eu me apaixonar e eu teria que perder você, porque é assim que acontece. Te amo por mim. É um amor de propósito, premeditado. Te amo porque não te quero. Tenho as ideias liquidificadas de quem ama, mas não tenho a apatia e cólera dos que sofrem. Tenho teu sorriso sincero, sem os vícios e receios que talham a verdade nos relacionamentos amorosos. Tenho a possibilidade de ousadia, que arranca o medo de você se reconhecer nessas linhas, porque confio no que sinto. Confio em você. Vez ou outra te refaço, é verdade... É que te quero bem; te quero cuidar e quero o tanto quanto tu possas me afetar. Te quero, principalmente, por esse não querer. E é assim que deixo nossa relação perto da eternidade, que não existe. Como tudo isso.
sábado, 26 de janeiro de 2013
"Feito pra acabar"
As coisas foram feitas para
acabar. Você precisa se acostumar. A
cerveja, o final de semana, a infância, o amor... É preciso acabar. Somos
roubados pelo tempo o tempo todo. E não tem choro nem vela. Não adianta
argumentar, querer só mais um segundo, mais uma palavra, um beijo. O tempo e o
fim são filhos de um mesmo pai agiota. Não adianta ler devagar o bom livro,
pausar aquele baita filme... É preciso acabar. As coisas acabam porque não
somos capazes de suportar a eternidade delas. Algumas sensações são tão
inebriantes que nos tomariam a sanidade se permanecessem por longo tempo.
Ninguém suporta amor demais. A
pele eriça, a boca se transforma numa fenda profunda, as costelas não são
capazes de conter uma respiração atrevida e inconstante. É uma esquizofrenia
que não encontra pagadores dispostos ao seu preço. Ninguém suporta cólera
demais. É um gosto acre diluído nas veias, capaz de apodrecer a juventude.
Sobre a tristeza, desnecessário descrever os porquês da sua indigesta
permanência. Ninguém suporta sempre, nada. "A gente é feito pra acabar [...] a gente é feito pra caber"*. E estou longe de acreditar que isso seja um revés da vida. É o seu fluxograma
incorrigível. Cedo ou tarde é preciso parir nossas barrigas, mentes e corações,
que vivem grávidos, gestando um monte de gente, um monte de sentimento, um
monte de saudade... É preciso acabar. Saudosistas que se aprumem, que deixem
que as coisas acabem sem fazer da vida um funeral constante, um luto pelo que
já não faria sentido continuar. Ainda que seja doce, ainda que seja grande, sendo
amargo, angustiante... As coisas foram feitas para acabar. Você precisa se acostumar.segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Encontro não marcado.
domingo, 2 de setembro de 2012
Sobre o que não se diz.
Certas coisas são inconfessáveis. Coisas que você acredita, mas a
maioria das pessoas não; coisas que você jura que não sente mais, mas sente;
coisas que, se expostas, revelariam uma face hostil, mesquinha e extremamente
fraca que fingimos não existir em nós mesmos. Algumas coisas são
definitivamente inconfessáveis... Mas nada que seja mal resolvido ou
manifeste alguma inquietude. São só dores que não deveriam mais doer, e que não
podem ser compreendidas isoladamente porque, na verdade, já não são mais dores; são
problemas que já deveriam estar sanados; são felicidades que já deveriam ter
acalmado, amores que já deveriam estar em paz. São coisas que perderam os argumentos,
o prazo de validade, o sentido, a voz. Coisas para as quais já não se deve mais
despender tempo, nem energia, pois são apenas presenças inconseqüentes de um
nada que insiste em
existir. Coisas que devem ficar em silêncio, como se fossem
uma condição permanente do nosso corpo ou da nossa alma, indissociáveis. Adquiridas ou inatas, não importa... Coisas que são e só. A certeza impressa nelas talvez seja seu principal trunfo. Elas se fazem lembrar
vez ou outra, mas não incentivam nenhuma mudança, pois sua inércia contagia
cada centímetro da nossa existência. São essas coisas que fazem perder o olhar quando escapam desse
cotidiano que não tem tempo pra elas, que surgem pouco antes do sono, mas se
dissolvem no torpor que logo nos acomete. São aparições velozes e efêmeras e
merecem uma atenção compatível; são aquelas coisas que qualquer toque de
telefone faz voar, mas que sempre estão por perto, com seus fiapos presos nas
garras que insistimos em afiar, num movimento inconsciente e suicida da nossa
memória – esta traidora sempre perdoada. Essas coisas inconfessáveis são
ambivalentes e tão nossas, que, ainda que não ocupem grandes espaços, nos
faltaria um pedaço caso não fossem mais. Deixemos sê-las, somos assim também.
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