domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre o que não se diz.


               Certas coisas são inconfessáveis. Coisas que você acredita, mas a maioria das pessoas não; coisas que você jura que não sente mais, mas sente; coisas que, se expostas, revelariam uma face hostil, mesquinha e extremamente fraca que fingimos não existir em nós mesmos. Algumas coisas são definitivamente inconfessáveis...  Mas nada que seja mal resolvido ou manifeste alguma inquietude. São só dores que não deveriam mais doer, e que não podem ser compreendidas isoladamente porque, na verdade, já não são mais dores; são problemas que já deveriam estar sanados; são felicidades que já deveriam ter acalmado, amores que já deveriam estar em paz. São coisas que perderam os argumentos, o prazo de validade, o sentido, a voz. Coisas para as quais já não se deve mais despender tempo, nem energia, pois são apenas presenças inconseqüentes de um nada que insiste em existir. Coisas que devem ficar em silêncio, como se fossem uma condição permanente do nosso corpo ou da nossa alma, indissociáveis. Adquiridas ou inatas, não importa... Coisas que são e só. A certeza impressa nelas talvez seja seu principal trunfo. Elas se fazem lembrar vez ou outra, mas não incentivam nenhuma mudança, pois sua inércia contagia cada centímetro da nossa existência.  São essas coisas que fazem perder o olhar quando escapam desse cotidiano que não tem tempo pra elas, que surgem pouco antes do sono, mas se dissolvem no torpor que logo nos acomete. São aparições velozes e efêmeras e merecem uma atenção compatível; são aquelas coisas que qualquer toque de telefone faz voar, mas que sempre estão por perto, com seus fiapos presos nas garras que insistimos em afiar, num movimento inconsciente e suicida da nossa memória – esta traidora sempre perdoada. Essas coisas inconfessáveis são ambivalentes e tão nossas, que, ainda que não ocupem grandes espaços, nos faltaria um pedaço caso não fossem mais. Deixemos sê-las, somos assim também.

domingo, 26 de agosto de 2012

"Please, don't stop the music."


                      Outro dia eu conversava com um amigo que entende muito de música. Ele falava com propriedade dos arranjos, notas e se referia ao “jogo da velha” como sustenido, numa linguagem técnica magistral. Senti-me a mais esdrúxula das criaturas, mal cabia na minha vexaminosa ignorância musical. Como poderia eu, dizer-me uma apaixonada por canções, se tenho duas mãos esquerdas que abortam todas as minhas tentativas de aprender a tocar um instrumento, e não faço ideia de quantos discos compõem a discografia de Chico Buarque?  Como se pode ser uma pessoa pseudo-culta sem saber nadica da primeira arte? Logo da primeira? Pensei em matricular-me em uma escola qualquer que me fizesse entender um pouco mais, já que a música, como poucas coisas nesse mundo, é capaz de evocar de maneira singular a emoção humana, fazendo-nos sentir coisas para as quais ainda não sabemos dar nome. (Aliás, os efeitos terapêuticos da música já são velhos conhecidos da Psicologia.). 

                  A conversa só mudou de rumo quando ele começou a criticar alguns gêneros musicais. Os mais populares tornaram-se alvo de adjetivos incompatíveis com as sensações agridoces e poéticas que a música faz nascer.  Afinal, quem decide o que toca o outro? Quem decide que aquilo que te faz sentir até os ossos é bom ou ruim? Música é música, certo? Eu, por exemplo, não gosto de heavy metal, não me faz sentir nada além de dor de ouvido... Se ao menos me fizesse sentir algo... Ainda que me fizesse sentir coisas horríveis, mas que me fizesse sentir! Alguns tipos de música realmente, para mim, são mudos. Para mim! E eu sou tão pouca gente. Música não faz escala na razão, ela tem conexão direta com o coração e com isso, meu amigo, cada um que cuide do seu. Mesmo aquelas com letras bobas, clichês e afins, se nos roubarem por um instante de uma realidade indigesta, por que não? A gente tem que aprender a se deixar invadir pela ambivalência que a música provoca, sem julgamentos, sem pré-conceitos. De Beatles à Jorge e Mateus, todos têm algo a dizer. E dizem lindamente, ainda que a gente não entenda uma palavra sequer, como quando se tornam belas as músicas estrangeiras. Até os funks, vejam só, me estampam de risadas e desfazem algumas rugas de tensão na minha testa... Quem é que vai me dizer que isso não é válido? Hoje penso que entender de música é bastante simples. É entender que não precisa ser visceral como Edith Piaf, nem tão genial como Cazuza e Russo, nem poética como Toquinho e Vinícius... Se me fizer bater o pezinho, deixar minhas pernas nervosas, meus olhos marejados ou minha boca aberta, tá valendo. Música é permissão, é encaixe e voz do que não precisa ser dito. Música também é ridícula, como tudo que é demasiado intenso. Música é quando a ideia de um monte de gente se encontra, às vezes, pra não dizer nada. E para entender de música, basta saber que ela não precisa fazer sentido para fazer sentir.

terça-feira, 31 de julho de 2012

"Fica muito bem no cinema..."


 Sou romântica. Uma ré confessa de crimes como acreditar no amor dos filmes; querer demonstrações públicas de afeto e planejar encontros que pudessem render um punhado de letras adocicadas. Não me julguem, eu juro que estou aprendendo... Consigo, por vezes, até vestir minha fantasia de mulher-moderna-independente-que-adora-ver-um-sutiã-queimando. Balela. Aprendi a ler com Machado de Assis e José de Alencar. Os vi tecendo descrições desavergonhadas, num ridículo e visceral mergulho amoroso para os quais eu lançava furtivos olhares invejosos. Como era de se esperar, aprendi à duras penas que eu não era Lucíola, nem Capitu,(embora traga os olhos de ressaca, às vezes) e não percebia meus romances como literários ou cinematográficos, ainda que, na minha histeria, eu os quisesse dramatizar. O problema é que apesar do peso das experiências, das leituras modernas, do facebook e de toda a sorte de facilidades em que fui afogada, algumas coisas não consegui mudar. Eu sei que já passei da idade, vai... É ruim principalmente porque costumo fazer dos meus desejos “ideais” maiores do que as possibilidades “reais”. Mas venho aprendendo, como eu disse, e a parte boa é que não precisei desistir de querer viver grandes histórias... Bastou apenas enxergar as minhas histórias como grandes. Entendo agora que ainda que não haja uma claquete pra finalizar cada flerte, eles todos são dignos de filmes, pois contam anonimamente as histórias de gente que só quer sentir um pouco mais. Sentir com a pele, sentir com o coração, com a cabeça... Pouco importa. É melhor que fazer guerra. Aquele beijo desajeitado, às vezes embriagado, mas cuidadoso e respeitado pode ser sim um grande beijo. Afinal, se “viver é melhor que sonhar” eu ainda não sei, mas que pode ser igualmente belo, não tenho dúvidas. Histórias de amor serão sempre histórias de amor; vezes trágicas, vezes cômicas, vezes insossas mesmo, vezes apenas histórias. Mas ainda que não aconteça nenhuma descrição desavergonhada e ridículos e viscerais mergulhos amorosos, a crítica não pode ser ruim quando se trata de um genuíno retrato da realidade. Realidade que, com um pouquinho de doçura e leveza, pode, também, se tornar digna de Oscar.

domingo, 10 de junho de 2012

"Enquanto o amor não vem"



                              Se você abriu o texto na esperança de ver uma crítica sobre o livro de Iyanla Vanzant, perdeu a viagem. Primeiro porque seria muita pretensão minha fazer uma crítica à qualquer tipo de obra. Segundo porque tenho o livro, ele me foi emprestado há alguns meses, mas eu não consegui ler. Parece bom e de grande (auto) ajuda, mas eu simplesmente, sabe-se lá porquê motivo, não consegui terminar de ler. No entanto, o título dele é algo que me atrai e faz refletir. Assim, estava eu numa dessas conversas tragicômicas com uma amiga: Lamentávamos nossa falta sorte com o amor, maldizíamos nossos ex, endeusávamos homens que não conhecemos, (sempre perfeitos esses danados inexistentes) descrevíamos as mulheres incríveis que somos – vocês ficariam impressionados com a quantidade de predicados que possuímos... na teoria (¬¬). Eis que, obviamente, a conversa rumou em direção à quantidade de coisas boas que estão por aí dando sopa, querendo acontecer se a gente der uma chance. Enfim, coisas para fazer enquanto o amor não vem. São dicas quase sempre falíveis, pois o amor pode chegar e acabar com os planos, ou então nunca vir e a lista se esgotar... Para ambas, 50% de chances de realização. Discutimos então nossas próprias considerações sobre o tema. 

                           O primeiro passo para esperar um novo amor é esquecer o velho. Podemos então começar por aí. A verdade é que todo mundo sempre vem com o mesmo discurso puído: viaje, conheça novas pessoas, divirta-se. Quando se está na fossa, tudo isso soa como um gole de coca-cola gelada e cheia de gás numa garganta ressequida – mas no fundo a gente sabe que o que mata a sede mesmo é água. Ou seja, se há sede de amor, nenhuma viagem para Itália, Índia ou Indonésia dá conta, minha gente. A conclusão que consigo chegar é: enquanto o amor não vem, prepare-se pra ele (isso o livro também diz, logo no prólogo). Mas, veja bem, preparar-se para ele, não é esperá-lo. Minha mãe já dizia: "a água não ferve se você ficar olhando pra ela". Esperar é proibido. Pensar pode. Pense nisso, sim. Se quiser encontrar alguém melhor do que aqueles que já encontrou na vida, você vai precisar ser também uma pessoa melhor. Aprenda com erros antigos. Nada de se expor em rede social quando estiver com raiva, já fiz isso e, dentre tantas outras coisas, é a que mais me arrependo. Depois de identificar quem são seus verdadeiros amigos, ouça-os. Fique perto de gente que faz bem. Entre em coma alcoólico se quiser, será bom pra você aprender a nunca mais fazer isso. Permita-se sentir. Fique triste. Fique com raiva. Deseje a morte de alguém, se preferir. Mas só por um segundo, assim Deus vai saber que você só está dizendo isso porque está chateado e é da boca pra fora... E a polícia não precisará ser acionada. Enquanto o amor não vem, duvide dele, mas não diga à ninguém. Não há nada mais patético do que alguém dizendo: "eu não acredito no amor". Ah, vá? Ranzinza desse jeito não há amor que queria chegar mesmo. Amor existe e sempre vai existir. Não culpe-o por não vir com os confetes e teatralidade que você gostaria, não culpe-o pelo seu dedo podre ou instabilidade emocional. A imperfeição do amor não anula sua desajeitada existência. Aos pouquinhos o tempo vai, com sua genialidade indiscutível, oferecendo a medida certa às coisas e às pessoas. Se você for inteligente, vai entender o recado. Se não for, ainda não está pronto para amar novamente, e talvez precise de um pouco de (auto) ajuda mesmo.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

E só.

Numa conversa com meu amigo outro dia, ele comentou sobre uma promoção que uma marca de roupas vai fazer, usando a expressão “keep calm and carry on”. Se eu não estou enganada, o povo está sendo instigado a criar algumas variações da frase britânica que foi lançada durante a II Guerra Mundial, e que quer dizer “mantenha a calma e siga em frente”. As paródias já existem aos montes e, para nossa alegria, digo, para minha surpresa,  (¬¬) já inventaram a maioria das minhas invenções. Pensei em “keep calm and keep walking”, afinal, o Jhonnie Walker é responsável por muitas mentes tranquilas hoje em dia… Ocorreu-me também o “keep calm and kill the bitch”, mas achei contraditório... Para eu ficar “keep calm”, primeiro teria que “kill the bitch”, e inverter a ordem não é uma opção, ficaria confuso. O fato é que a pessoa que inventou essa singela frase, que juntou as palavrinhas assim, tão genialmente, sabia o que estava dizendo. 

Essa expressão foi criada a fim de motivar as pessoas que experimentaram a Segunda Guerra a seguir em frente, apenas. Acredito que tenha funcionado; e olha que nem preciso divagar muito ou fazer uso de uma pseudo veia filosófica que corre nesse meu volumoso corpinho para entender isso. Simplificar é o segredo. Gente, olha só... Eu queria mesmo que o mundo mudasse pra melhor; queria que os políticos não fossem corruptos; que a natureza fosse mais respeitada; que as pessoas vivessem em harmonia; queria que “Festa no Apê” nunca tivesse sido composta; eu queria que a tampa de margarina nunca caísse virada para baixo; queria de verdade que bons corações nunca fossem partidos; e que o câncer, no mínimo, não acometesse crianças... Mas isso tudo existe. Existe tanto que às vezes, só nos resta suportar, só resta ser resiliente. É simples: você pode lutar e mudar muitas coisas... Outras, simplesmente, não. Não adianta saracotear, xingar, querer morrer, ter toda a sorte de ataques epiléticos e ensaiar aquele super drama. É "só" resistir. Pode fechar os olhos se quiser, ajuda. Se você não for um suicida em potencial, vai sobreviver. Mais dia, menos dia, o que hoje parece ser o holocausto dando as caras na sua vida, amanhã vai ser uma memória longínqua de algo que você, mais uma vez, superou. Sério, aconteça o que acontecer, apenas “mantenha a calma, e continue seguindo em frente.”

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Silêncio.



          "O depósito de nadas" é um nome que tem cabido perfeitamente pra esse blog, hein? Há tempos não escrevo. Sei que empaquei cedo, mas não me levem à mal. Não sou adepta a obrigações e, sinceramente, às vezes é melhor não dizer nada mesmo.

            Denunciar-me era um dos propósitos ao criar esse espaço e assim, a minha ausência aqui também me denuncia. É que eu seco. Por vezes, olho para as coisas ou para as pessoas, e as vejo exatamente como elas são, sem nenhuma alça onde minha imaginação possa se pendurar pra fazer cuspir letras. E assim, sem nenhuma constatação extraordinária, enxergando só o óbvio, só o que não precisa ser dito, me sobra o silêncio ensurdecedor, que atrofia meus dedos, que bebe toda minha ânsia de escrever, engolindo minhas palavras como se quisesse me proteger de mim; como se soubesse que, por hora, nada do que eu diga conseguiria ser fiel ao que sinto e penso. Porque o silêncio é filho de muitos pais e mães. É filho adotivo de “não sei o quê, não sei onde”. 

          O silêncio é um grito ao contrário, dirigido pra quem interessa de fato, voltado pra dentro, como é preciso ser. Eu calo quando estou feliz, calo quando estou triste, mas, sobretudo, calo quando preciso de organização, quando nada do que se passa aqui dentro é traduzível... Quando tudo que se passa lá fora é inenarrável; quando eu preciso saber o que é, pra poder explicar. Eu calo pouco, mas calo bem. É preciso primeiro entender o que o silêncio quer dizer, para enfim dizê-lo. O silêncio já pediu pra eu ficar, já me mandou embora. O silêncio já disse que eu estava certa e, por tantas outras vezes, que estava errada. O silêncio já me disse que não sabia, ou que sabia tanto que preferia que eu descobrisse sozinha. O silêncio já disse que me amava, e já não disse nada. Fica a promessa de que, quando eu tiver sapiência para legendar esse silêncio que me toma, o faço morrer afogado em novas palavras.

domingo, 25 de março de 2012

Sobre a outra ressurreição.



Quando Deus criou a mulher, ficou com peninha do homem. E aí, como prêmio de consolação, ofereceu aos rapazes uma dádiva que Ele havia permitido somente à Jesus e Lázaro: o poder da ressurreição! Eles só não sobem aos céus porque tudo tem limite, mas que ressuscitam, ah ressuscitam! Nem sempre é no terceiro dia; às vezes leva anos, mas isso depende de como foi a morte. Se a mulher o matou, ele demora mais, mas, se foi um suicídio, a ressurreição é mais rápida. Independente do tempo, há um pré requisito básico para um morto ressurgir das cinzas: a mulher parecer livre. Se tem uma coisa que faz qualquer caboclo saracotear no túmulo é perceber que ele não é mais tão importante quanto um dia foi. E assim, “volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, com seu osso roído e com o rabo entre as patas”... As mulheres, que de bobas não têm nada - e sim tudo - vão logo vestindo seus óculos de lentes cor-de-rosa, achando que o cosmos conspirou a favor do seu grande, puro e eterno amor e, enfim, tudo ficará bem.
Se tem uma coisa que mulher sabe fazer é perdoar. A habilidade de perdão das moças é como o Zorra Total, BBB ou a auto-estima elevada do Romário: ruim e eterna. São raras (e admiráveis) as exceções. Acho que foi isso: Deus deu a ressurreição aos homens, e a divina capacidade de perdoar às mulheres. “Má” que bela sacanagem, hein? Vida eterna, nem pensar? Enfim... O fato é que temos o péssimo hábito de acreditar em quase tudo que nos falam - aliás, o comportamento feminino rende pauta pra muitos outros textos - ; e uma ressurreição em nossas vidas merece tanta atenção quanto mereceu aquela da bíblia - pelo menos por algumas horas - . Só é preciso cuidado porque, na maioria das vezes, esse zumbi só está interessado em comer mesmo, e não é o nosso cérebro.
Se eu sei o que fazer? Se eu tenho dicas às mulheres ou mesmo aos homens? Bulhufas! Eu não me atreveria a fingir saber. Mortos que voltam à vida são casos complexos que devem ser cuidadosamente estudados... Ou não. Conheço gente que comemora muitas Páscoas no ano, e outros que também as lamentam; para todos os casos, o chocolate é bem-vindo. Às vezes fechar bem a tumba é garantia de levar menos sustos; Às vezes deixá-la semi aberta garante boas surpresas; outras a gente precisa saber avaliar se o morto está mais para Jesus ou Barrabás; E ainda há aquelas vezes em que dar uma de Pôncio Pilatos e jogar a vida no colo do destino é a melhor saída, porque, afinal, se ninguém sabe o dia da morte de alguém, quem dirá da ressurreição?