domingo, 28 de abril de 2013

Gente.


Às vezes não sobra muito mesmo. Mas, no fundo, sempre tem alguma coisa. Sempre tem um fiapo, um cheiro impregnado na ponta dos dedos, quando se abraça o pescoço. Sempre sobra aquele olhar que sobreviveu aos três segundos, e pode fazer com que aquele rosto seja um dia reconhecido. Sobra um sorriso meio sem querer, um “desculpa” depois do esbarrão... Sobra um toque descuidado e despercebido, não tem jeito... Sempre sobra um restinho de gente na gente. Restinhos que vão se acomodando, como tijolos na nossa construção. Aumentando o espaço, o gosto de gente, o gosto por gente. Gente de todo jeito, que vem e logo vai, que foi sem nunca ter vindo; gente que te enrola e você fica querendo; gente que te adora e você vai perdendo; gente que dura um segundo e vale muito; gente que dura uma vida inteira e custa caro; gente que nem sabe o tamanho que ocupa em você; gente que nunca vai saber... Gente que você já esqueceu; gente que você perdeu; gente que te queria perto e você nem percebeu; tem gente que vai e te leva; tem gente que você carrega e pesa; tem gente que some e você agradece; gente pra quem você faria uma prece... Gente que te faz, e gente que te desfaz; gente que nunca mais vai fazer; mas fez.

Gonzaguinha já disse o que eu queria dizer, em melhores palavras e final: “[...] aprendi que se depende sempre de tanta, muita, diferente gente; toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas, e é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá; e é tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar [...]”.

terça-feira, 19 de março de 2013

Sobre o tempo (ou sobre o medo).


Às vezes tenho medo. Um medo daqueles de dar medo. Medo de não haver tempo, porque hoje eu sei que não há. Eu precisaria de mais vidas para experimentar, sentir, gozar e, por que não, doer tudo que quero. Há tanto sentido espalhado sem sentido nenhum. Há tantas pessoas que eu gostaria de conhecer, tantas profissões que eu gostaria de exercer, tanto tudo que eu nada sei dizer. Há tanta coisa pra saber, tantas ciências pra nascer, tantos filmes, livros pra ler... Mas não há tempo. Não falo das horas, dos minutos e de toda essa metodologia pragmática e racional a que o tempo foi submetido. Falo do tempo. O tempo não é medido. É sentido. As horas, percebemos no azedume de uma segunda-feira bege. Os meses, posso medir pela caixa do correio, que acusa mais uma conta a ser paga. Mas o tempo? O tempo eu só percebo quando falta. E ele não falta na correria cotidiana. Ele falta quando percebo as linhas que contornam meus olhos, cada vez mais profundas, mostrando um rosto diferente no espelho numa manhã sonolenta qualquer; ele falta quando vejo que meus sobrinhos já têm preocupações parecidas com as minhas. O tempo falta quando eu me deparo com cartas e bilhetes antigos de uma gente que já foi a mais importante do mundo; falta quando encontro dificuldade em me reconhecer em fotos da infância, ou quando descubro manuscritos meus onde eram colocadas bolinhas, ao invés de pingos nos “i’s”. Foi por isso que senti medo. Porque num ato suicida, eu esqueço que o tempo está aqui, com suas mãos pousadas no meu ombro, e ainda assim só consigo vê-lo no que já fui, e no medo que tenho de não conseguir ser tudo que quero. Medo porque, burramente, enxerguei o tempo como quem enxerga as horas, com certo desdém. Esperei o tempo chegar e agora só o vejo ir. É como se houvesse uma tarja preta e o trecho reservado para a vivência do tempo agora, não existisse. Assim, fico sem saber se viver o tempo não será justamente esse seu esquecimento. Se ele passa, como passa uma pipa perdida, carregando a vida da gente da melhor forma, sem exigir grandes reflexões; ou se é a gente que tem que puxar o fio e levar o tempo pra onde achar melhor, tentando fazer caber nessa fôrma tudo que a gente quer ser, ver, viver. Confesso que eu sempre quis levar o tempo, mas não consegui muito mais do que deixar que ele me levasse... Apressado, como ele só sabe ser. 

domingo, 10 de março de 2013

Pro dia nascer feliz?


Eu sentei na beira-mar e fixei meus olhos cansados no horizonte. Eu sabia que ele estava ali. Eu sabia que ele viria. Já dava para ver a ponta das nuvens mais luminosas, premeditando o evento. Eu queria tanto... Já fazia tanto tempo que aquilo não me acontecia. E era tão bom... No fundo, penso que ele também me queria ali. São poucas as pessoas que o vêem daquele jeito. Eu queria vê-lo tal qual ele quisesse ser visto. Eu o aceitaria como se mostrasse. E só aquele ato de confiança, o ato de enxergar, sem medo, mesmo que ele pudesse ofuscar, mesmo que não correspondesse às expectativas, só aquele ato, já era impregnado de um afeto que me lembro poucas vezes de ter sentido. Mas os minutos foram cruéis e longos e muitos. E, em cascata, trouxeram uma apatia que tomou o lugar do ânimo. O sono me acometeu. Eu não entendi o porquê da sua demora, ainda que pudesse imaginar os motivos da ausência de explicações. Eu o queria muito, mas meu corpo exausto, que já vive em guerras com a minha mente, mandou-me ir. E eu fui. O caminho me distraiu, reparei nas pedras, nas plantas, no calçamento. Também eram belos e cumpriram seu papel. Deve ter sido a mesma distração que ele teve com as nuvens, com o outro lado do hemisfério ou qualquer outro motivo que construiu o atraso. Nos demos as costas. Quando cheguei em casa, finalmente pude enxergá-lo enfiando seus feixes de luz pela janela. Já não adiantava mais. Estávamos em direções opostas agora... Eu talvez fique sempre na esperança de vê-lo chegar. E ele talvez fique sempre na esperança de me ver na beira-mar, esperando. Poderia mesmo ter sido um encontro interessante. Mas não foi. Se ainda fizer sentido, qualquer dia desses, quem sabe.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Vem cá, amigo.


Vem cá, amigo. Isso, sem medo. Pode deitar tua cabeça no meu colo. Não te preocupes se as tuas lágrimas molharem minhas pernas, eu não me importo. Não me importo que teu nariz fique escorrendo ou que o teu rosto consiga ficar feio tamanha dor que ele exprime. Eu vou desviar os olhos quando perceber que você está constrangido ao ter feito um barulho estranho por tanto chorar. Te trago um copo d'água depois, se a gente tiver tempo. Mas vem aqui. Deixa eu te ver, deixa eu saber de ti, deixa eu te prometer que vai ficar tudo bem, mesmo que eu não acredite. Deixa eu acompanhar, deixa eu carregar um pouquinho do teu sofrimento enquanto tu choras. Se  puder, perdoe meu silêncio. É que contemplar tua angústia faz nascer outra em mim. Enquanto te observo, minha mente já percorreu o mundo tentando encontrar mãos que arranquem do teu peito essa dor e, do meu, essa covarde sensação de impotência. Talvez eu não tenha um novo amor pra te dar; é bem possível que eu não tenha grana pra te emprestar; pode ser também que eu nunca diga ao teu pai que ele precisa parar de beber, nem vá trazer de volta alguém que morreu... Mas eu vou estar aqui. Vou tentar fazer tudo certo, viu? Vou estar servindo de escudo, te protegendo do mundo enquanto tu juntas teus pedacinhos. E eu vou segurar tua mão bem forte, vou deixar que tu sintas minha pulsação vibrando na mesma frequência que a tua, pra tu saberes que ainda há vida por aqui.  Tenta dizer pra mim o nome disso que tu estás sentindo. Se não souber o nome, não se preocupe em encontrar as palavras certas, eu vou entender a tua desconexão. Se preferir, fale o quanto quiser, eu não vou te achar chato; e se achar, te conto só depois, quando a gente estiver rindo disso tudo. Pode falar mal de alguém também, eu deixo. Pode duvidar de Deus, eu não vou argumentar. Agora somos só eu e você. Eu, você e o amor que sinto, e a vontade que me toma de te ver sorrindo genuinamente. Mas eu espero. Espero teu rosto desinchar, tua respiração voltar ao normal e você voltar a acreditar. E você volta. Você sempre volta, e respira, e acredita e sorri. E é só assim que eu posso voltar também. Porque não estou contigo... Sou contigo, pelo tempo que o tempo permitir.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"Amor inventado"

O que me provoca não sei bem, mas permita-me tentar: Talvez um afetamento afetuoso que te apodera do meu sorriso, te empossa gestor do meu ânimo e da minha obsessão por John Mayer ecoando pelo quarto quando estou sozinha. Talvez um tesão bipolar, que oscila na frequência deficiente com que te vejo. Talvez seja um fraterno sentimento que me faz querer para sempre a tua influência sobre mim e, bem por isso, por essa medida de tempo que não existe, por esse "para sempre" que teimo em desejar à tudo que é bom de sentir... Por isso, meu bem, não te quero personagem do meu amor romântico. Te quero assim, como essa entidade que traz possibilidade do meu controle, que criei do meu tamanho e, portanto, para mim, perfeito. Inventei um sentimento que te faz presente sempre que quero, mas não dói na tua ausência, ou quando outras bocas te bebem. Prefiro a gente assim, criadora e criatura, e só. A paixão estragaria tudo. A paixão faria eu me apaixonar e eu teria que perder você, porque é assim que acontece. Te amo por mim. É um amor de propósito, premeditado. Te amo porque não te quero. Tenho as ideias liquidificadas de quem ama, mas não tenho a apatia e cólera dos que sofrem. Tenho teu sorriso sincero, sem os vícios e receios que talham a verdade nos relacionamentos amorosos. Tenho a possibilidade de ousadia, que arranca o medo de você se reconhecer nessas linhas, porque confio no que sinto. Confio em você. Vez ou outra te refaço, é verdade... É que te quero bem; te quero cuidar e quero o tanto quanto tu possas me afetar. Te quero, principalmente, por esse não querer. E é assim que deixo nossa relação perto da eternidade, que não existe. Como tudo isso.

sábado, 26 de janeiro de 2013

"Feito pra acabar"


                 As coisas foram feitas para acabar.  Você precisa se acostumar. A cerveja, o final de semana, a infância, o amor... É preciso acabar. Somos roubados pelo tempo o tempo todo. E não tem choro nem vela. Não adianta argumentar, querer só mais um segundo, mais uma palavra, um beijo. O tempo e o fim são filhos de um mesmo pai agiota. Não adianta ler devagar o bom livro, pausar aquele baita filme... É preciso acabar. As coisas acabam porque não somos capazes de suportar a eternidade delas. Algumas sensações são tão inebriantes que nos tomariam a sanidade se permanecessem por longo tempo.

                     Ninguém suporta amor demais. A pele eriça, a boca se transforma numa fenda profunda, as costelas não são capazes de conter uma respiração atrevida e inconstante. É uma esquizofrenia que não encontra pagadores dispostos ao seu preço. Ninguém suporta cólera demais. É um gosto acre diluído nas veias, capaz de apodrecer a juventude. Sobre a tristeza, desnecessário descrever os porquês da sua indigesta permanência. Ninguém suporta sempre, nada. "A gente é feito pra acabar [...] a gente é feito pra caber"*.  E estou longe de acreditar que isso seja um revés da vida. É o seu fluxograma incorrigível. Cedo ou tarde é preciso parir nossas barrigas, mentes e corações, que vivem grávidos, gestando um monte de gente, um monte de sentimento, um monte de saudade... É preciso acabar. Saudosistas que se aprumem, que deixem que as coisas acabem sem fazer da vida um funeral constante, um luto pelo que já não faria sentido continuar. Ainda que seja doce, ainda que seja grande, sendo amargo, angustiante... As coisas foram feitas para acabar. Você precisa se acostumar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Encontro não marcado.

Eu gosto de gente. Gosto daquelas que eu conheço há anos, embora sempre haja o que descobrir, e gosto, sobretudo, daquelas que são apresentadas a mim pelo acaso. Aquelas que encontrei por um descuido do destino, que poderia me colocar em qualquer lugar do mundo, mas me colocou ali, junto de criaturas que, por motivos diferentes, estavam no mesmo espaço e tempo que eu. Eu sei que todo mundo começa a se relacionar assim. Nenhum primeiro encontro deveria ser premeditado. São as veias de energia que pulsam no mundo que, como num movimento peristáltico, vão empurrando as pessoas para seus encontros. E o encontro não é só estar ali. Conheço gente que sempre esteve “ali” e nunca se encontrou de fato. Encontro é afetamento. É quando você repara que há mais alguém no mundo que merece atenção; quando a presença desse alguém é diferente da presença das árvores ou da mesa do bar; ou, é aquela inquietação com a pessoa que divide a mesma fila do caixa do supermercado, mas que por uma piada sem graça do mundo, você nunca vai nem falar com ela; encontro é quando você sente. O que me comove mesmo é isso: o bendito do encontro primeiro. Aquele em que há um desconserto, uma primeira chance. Aquele onde, na maioria das vezes, as nossas defesas estão sempre de prontidão e, contraditoriamente, protegendo o outro de nós mesmos. Mas até essa breve premeditação e comedimento, nos faz mais puros, porque isso é medo - emoção primária, instintiva. Dá medo porque gente é coisa séria. Julga cada centímetro de palavra, ou da falta dela. Gente faz diagnóstico por imagem, aproveita que o outro está ali, limpo, como um grande caderno de desenhos para colorir, e preenche com imaginação e aquarela própria ele inteirinho. Em alguns segundos, podemos ter quem quisermos à nossa frente. Podemos invejar a vida que levam porque essas pessoas ainda não são frágeis como nós. Não têm o peso da bagagem que a gente tem por se conhecer uma vida inteira. Elas são só os sorrisos educados, que a gente entende por felizes. Não sabemos das suas estórias; não sabemos se seus corações estão partidos, se têm boa relação com os pais, se têm medo de altura, de escuro; não sabemos o que elas enfrentam no trabalho, se choram assistindo filme, se elas se sentem sozinhas quando a luz apaga... Até que, a cada novo trejeito, frase, erro, gentileza, as pessoas vão enfim, tendo vida própria no encontro, na gente. Enchem-se de si mesmas, deixando de ser nossas meras projeções. Vão sendo um pouco de nós e nos deixam sê-las também. Logo elas vão se instalando num outro patamar, igualmente belo, que é a sua absorção na nossa vida e inevitavelmente sua partida, mas isso já é outra história.