Eu também quis fazer poesia com a saudade, mas dessa vez ela
não era dramática, não sangrava. Dessa vez, ela ficou com vergonha das minhas mil
atividades diárias e resolveu não exigir muita atenção. Percebeu-me sem muito tempo para nos relacionarmos. Dessa vez, a saudade se
colocou, enfim, no seu lugar: ela dançou as nossas músicas, surfou nos cheiros, riu daquela ode que fizemos juntos, constrangeu-se com as fotos antigas, preencheu o espaço entre o apagar da luz
e a chegada do meu sono. Quando ensaiou doer, e exercer assim sua principal função, obedeceu-me sem pestanejar. Não usou meu celular, não colocou
palavras na minha boca, não jogou confete em nenhum silêncio e não fez
brigadeiro. Ela estava só, e só. Foi elegante, uma verdadeira dama, nada de
histerias e efusividades, um poço de sensatez! Preocupo-se comigo, na verdade. Eu, agradecida,
diante de tantas ausências, dessa vez, fiz questão da sua presença. Dessa vez.
sábado, 31 de maio de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Calça curta.
Acho graça de mim cada vez
que tu chegas. Se tu olhas, eu desvio, quase entro no freezer cheio de
Coca-Cola; encontro qualquer coisa pra tentar empalidecer meu rosto novamente e dissolver o constrangimento rubro que me pinta. Quando
tu te distrais, eu te recorto inteiro, e embaço o fundo pra te ver melhor. Quando
percebo, já to rindo sozinha do teu cabelo desajeitado, e dos teus pés que
andam em direções opostas. Também acho graça da maneira que tu falas, confesso. Mas eu
sempre ignoro; ignoro porque não ouço mais a forma quando ela se faz em conteúdo educado e simpático... E lá vou eu te colocar de
novo no meu sorriso idiota. A tua pele também já foi alvo da minha admiração. Ela
fica rosa quando é frio demais, ou quando é calor demais. Mas quando abraçou teu colega, eu nem reparei de que cor tu ficaste, eu
só vi o abraço. Se eu pudesse, te diria pra não usar mais aquela camisa verde. Eu
a notei logo de cara, mas ela sumiu quando você foi gentil com aquelas pessoas
que estavam ao teu redor, e quando tu, sem saber, me deixaste passar na tua
frente na fila da lanchonete. A verdade é que eu te admiro antes de te amar e
isso sim é um terreno perigoso. De amor eu dou conta, engulo, mastigo... Mas
admiração me pega de calça curta. Por favor, não seja mais tão legal. Se puder,
peça pra alguém falar mal de você pra mim, quem sabe assim deixo de calcular teus
horários pra te encontrar. Sorria menos
também, tá? Não me cumprimente mais mesmo sem me conhecer. É cansativo pra mim.
Sinto um pouco de raiva de ti por isso. Mas de raiva eu dou conta, engulo,
mastigo... a admiração é que me pega de calça curta.
domingo, 6 de abril de 2014
Dos nossos excessos.
Falei mil vezes sobre as nossas diferenças querendo encaixar um pouco de curiosidade na gente. Fracassei. A verdade é que precisei, enfim, reconhecer o acordo tácito que fizemos, desde o começo,
sobre as semelhanças inúteis que temos. Nunca poderemos firmar um tratado de
completude, de somar com aquilo que tens demais, para aquilo que me falta. Tudo
que me sobra, esparrama de ti também. Aí a gente fica com mãos sujas da gente
mesmo, e corre, um do outro, porque não tem nada a acrescentar. Tudo que eu
poderia te dar, tu faz doação em campanha, porque já não tem onde guardar. Tudo
que tu terias pra presentear a minha vida, eu deixo apodrecer em sacolas na
despensa de casa, numa oferta que sobrepõe a procura e barateia nossa permanência
na vida um do outro. Talvez por isso tua ausência me soe tão presente, ela sim
faz sentido. Somente quando não estamos juntos tu me acrescentas alguma coisa. A
saudade que sinto me faz melhor e oferece a única coisa que não tenho de ti: tu
mesmo. Quando tu estás, eu me farto de tanto nós. Encho das nossas sandices e saio
cansada como um moleque ao fim de um dia de praia. Quando tu não estás é que
finalmente tu te apresentas na minha vida de maneira mais cheia de paz. Quando
tu não estás eu não preciso te entender, nem me cansar, nem transbordar. Quando
tu não estás eu tenho o melhor de nós. Eu gosto de perceber tua ausência, é a
maneira que o mundo encontrou de nos deixar juntos sem causar danos, já que de
outra forma a gente explodiria por excesso. Por excesso de dor. Por excesso de alegria.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
No novo não.
Queria ter te enviado uma
mensagem de final de ano. Um sms qualquer, discreto, como de costume, mas com
aquele luminoso que denuncia a tua importância pra mim. Queria ter te desejado
um natal bom, um ano novo massa. Queria ter pensado minuciosamente nas palavras,
as interpretado das mil formas que eu imagino que você interpretaria, pra
fracassar de maneira digna. Mas eu não enviei. A operadora do celular não foi o
problema. Eu só não enviei mesmo. Não enviei porque você não sabe ser gostado.
Você fica pequeno e acha que te querer bem é um problema meu. Você devolve
minhas palavrinhas e carinhos todos naquele saco de indiferença que costurou
com a minha sinceridade. Burrinha ela, a minha sinceridade. Você usou aquele
espanador com penas de mim e foi varrendo minha vontade pra debaixo daquele
tapete vermelho que eu jogo quando você passa. Eu agora cerro os lábios, ainda
perco para os olhos, mas a boca eu fecho. Engulo meu afeto em formato de
ouriço-do-mar e te deixo ir... Você sempre quer ir.
Eu nunca te abri a porta, mas enfeitei ela toda com as estrelinhas que saíam do meu olhar quando você dizia aquelas coisas bonitas pra mim, pra que você ficasse mais a vontade pra entrar, puxar uma cadeira, esbarrar no meu colo e fazer dele um bom lugar. Acontece que eu já guardei as xícaras e não compro mais o pão que você adora. Não teço mais uma colcha de pontos de interrogação para que você me cubra todas as noites. Aposentei as canetinhas coloridas com as quais eu descrevia esse meu trabalho voluntário, que é gostar de você. É a coisa mais altruísta que já fiz na vida: gostar de você. Mas se me perguntar, eu minto. Minto até virar verdade. Porque meu gosto ainda está agarrado na lembrança, e se posso lembrar, também posso esquecer. Na verdade, hoje eu não te gosto. Te gosto ontem. Quem eu sou hoje não gosta de você, porque você hoje parece não gostar de ser gostado. Você desaprendeu a construir e só fica na sombra, enquanto eu estou com o lombo no sol. Minha pele tá ressequida, precisando de água limpa, saliva nova, novidade. Mas aqui ainda sou eu de ontem e você de ontem e nós de ontem. Talvez por isso eu não tenha te mandado uma mensagem de ano novo... É no tempo passado que melhor te conjugo. No que é novo você não cabe.
Eu nunca te abri a porta, mas enfeitei ela toda com as estrelinhas que saíam do meu olhar quando você dizia aquelas coisas bonitas pra mim, pra que você ficasse mais a vontade pra entrar, puxar uma cadeira, esbarrar no meu colo e fazer dele um bom lugar. Acontece que eu já guardei as xícaras e não compro mais o pão que você adora. Não teço mais uma colcha de pontos de interrogação para que você me cubra todas as noites. Aposentei as canetinhas coloridas com as quais eu descrevia esse meu trabalho voluntário, que é gostar de você. É a coisa mais altruísta que já fiz na vida: gostar de você. Mas se me perguntar, eu minto. Minto até virar verdade. Porque meu gosto ainda está agarrado na lembrança, e se posso lembrar, também posso esquecer. Na verdade, hoje eu não te gosto. Te gosto ontem. Quem eu sou hoje não gosta de você, porque você hoje parece não gostar de ser gostado. Você desaprendeu a construir e só fica na sombra, enquanto eu estou com o lombo no sol. Minha pele tá ressequida, precisando de água limpa, saliva nova, novidade. Mas aqui ainda sou eu de ontem e você de ontem e nós de ontem. Talvez por isso eu não tenha te mandado uma mensagem de ano novo... É no tempo passado que melhor te conjugo. No que é novo você não cabe.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Instante Grande.

Ele disse que não queria mais viver. Alguns
processos de hospitalização e luto são bastante clássicos, mas eu não estou
aqui para falar de psicologia. Eu quero falar é do que eu senti; E senti que diante da face
da morte, nada, absolutamente nada, é tão importante. Bem óbvio, entendo, mas me
deixe contar: Um senhor caiu da carroça com que trabalhava. Fraturou a coluna,
ficou tetraplégico. Machucou a perna e, devido à diabetes, precisou amputá-la.
Há alguns dias ele estava trabalhando, firme. Agora estava diante de mim,
emagrecido, astênico, apático. Ele era de uma simplicidade cativante e de uma
tristeza comovente. Durante seu discurso contido, uma frase sobressaiu às
outras e, confesso, num ato egoísta, demorei para voltar a entender o que ele
continuava dizendo, tamanho meu choque. Ele disse, num sopro que saía do vão
que existia entre alguns dentes, e com a imponência de quem não tem mais nada a perder: “A vida é coisa tão bonita, né?”. Eu calei.
Ofereci-lhe o silêncio merecido depois do impacto de uma constatação tão
simples. E, mesmo embebida em toda aquela atmosfera do sofrimento dele, a parte
triste da história vem agora... Eu me senti do tamanho de uma ameba. Corei. Fui
para casa agradecendo o soco no estômago e, enquanto refletia sobre as “coisas
da vida” e suas fragilidades, pensei que havia dado um passo adiante na
tentativa de ser alguém mais espiritualizada e menos materialista. Aconteceu
que alguns dias passaram, meus pobres probleminhas continuavam lá, e foram
turvando a frase “a vida é coisa tão bonita, né?” da minha memória. Há um efeito
sanfona na alma. Num ato inconsciente, voltei a ser pequena. Esbravejei por
causa da antena da TV, lamentei alguns quilinhos à mais, reclamei das contas à
pagar e praguejei a semana longa e cheia
de trabalho. Aquele senhor me daria com as muletas nas fuças se pudesse me ver
agora. Torço para encontrar novos mentores como ele, até que eu aprenda algo
enfim. Ele sabia que cada um de nós é capaz de dar pesos diferentes aos mesmos
fardos e que a dimensão das nossas alegrias e tristezas não devem,
necessariamente, ser calculadas com nenhuma base externa... Mas, ainda assim, tê-lo
visto naquele momento de lucidez tamanha (ainda que envolto em dores da carne e
da alma), dissolveu, pelo menos por um instante, a minha miopia diante da vida.
E que grande instante foi aquele, senhores, que imenso instante.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Sobre o que deixar.
Ainda não me acho alguém de
muitas experiências. Tenho meus tropeços, minhas lágrimas e meu gozo. Como todo
mundo. Minha história não é mais especial do que a de qualquer cidadão que
tenha vontade de perder um tempo lendo essas minhas linhas. Bem por isso, não
me acho digna de tecer grandes conselhos e frases de efeito. Não tenho
respostas, lamento. Invejo os grandes espíritos que sabem deixar seus
ensinamentos de maneiras simples, mas com uma força capaz de tatuar, na cabeça
ou no coração dos ouvintes, algo que sirva pra viver. Bem, pelas minhas contas
talvez eu precise do dobro do tempo que tenho nesta vida pra conseguir dizer
algo que realmente valha à pena e seja ressonante. Mas, se eu não tiver esse tempo, nem filhos,
nem netos para me ouvir, por ora, gostaria que lembrassem de mim como alguém
que achava bonito ser honesto. Não falo do troco devolvido quando recebido a
mais, nem de pagar as contas em
dia... Isso é obrigação. Acho bonito gente que é honesta com o
que sente, e com o que faz os outros sentirem. Gente que levanta a bandeira da
empatia, e consegue se indignar com a falta dela; que cuida com respeito de um
coração que lhe foi dado. Gente que, mesmo escondendo o que sente, entende que
seu segredo é preciso tamanha responsabilidade. Gente que não joga no colo do
outro uma culpa que ninguém tem, porque é honesto. É lindo ver um amigo sendo
honesto; mesmo que ele se embasbaque, mesmo desajeitado; ele sabe que viver a
verdade pode ser desconfortável às vezes, mas sabe também, sobretudo, que ela é
um remédio necessário, um remédio que cura, limpa e emagrece. Eu queria mesmo que vocês fossem honestos, que não permitissem leviandade, mas que a
perdoassem, se puderem. Eu vou continuar tentando, prometo. Os honestos pagam
caro, mas entendem de custo/ beneficio. Se formos honestos, a gente só erra
tentando acertar; se formos honestos, sempre haverá perdão... E enquanto houver
perdão, estaremos livres.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Sorria, meu bem, sorria.

Essas linhas são
sobre o teu sorriso... E eu
lamento. Lamento porque sorriso é coisa boba, é coisa que todo mundo fala e
admira. Queria manter meu mau hábito de enxergar beleza no que é estranho; eu
queria admirar, por acaso, um antebraço teu - ou qualquer outra coisa que
passasse despercebida feito um antebraço. Mas não, caí no limbo do senso comum
e fui absorvida pelo teu sorriso. Eu não vim pra falar do quanto ele é lindo;
ele até é. É lindo, mas eu nem sei se teus dentes são simétricos ou de um
branco cor de luz de hospital. Se bem me lembro, teu lábio inferior tem até uma
pelezinha que deixa ele um tiquinho torto, cobrindo com incompetência parte dos
dentes... Mas não importa, não é a forma dele que me embasbaca. Fui pega pelo
teu sorriso porque ele te faz outro. É um sorriso grávido, pois há outra pessoa
nele. Eu te conheço muitos e gosto de quase todos. Quase. E é desse quase que
teu sorriso dá conta, porque é um sorriso soda cáustica, que corrói tudo e
deixa só o sorriso, o sorriso daquele você que eu gosto. Às vezes o assunto é
sério e, de repente, você sorri e engole tudo e cospe arco-íris e eu já nem
lembro mais. Você todo some, fica só o sorriso. Eu queria o antebraço, mas é o
sorriso. Por uma coincidência marota e clichê é essa arma que tens talhada na
cara que mais me exaspera. Tem aqueles vincos que se formam ao redor dos teus
olhos, que eu também já reparei. Mas os encaro mais como setas que apontam um
olhar que também sabe sorrir, do que a denúncia de um tempo que insiste em
chegar. Tudo isso
é figura fundo pra esse astro
feito de pequenos ossos que chama atenção feito a fratura exposta que é; que
expõe você da maneira romântica que só a música saberia fazer, que expõe você
no espasmo de fé que parece esconder, mas que se revela na luz da tua saliva
quando os lábios deixam os dentes molhados e nus. Quando você ri, eu encontro o
que você perdeu. Devolvo quando puder.
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