Desenhei com a ponta dos dedos o contorno do teu nariz e reparei nos pelos desorganizados (por mim) da tua sobrancelha.
Deitei meu verde no teu marrom escuro, e acho que você percebeu que a menina dos meus olhos nunca foi boa em esperar... A não ser ali, no conforto morno da tua clavícula, que se expandia aos poucos, embalando o quanto eu precisava descansar;
Desci um pouco mais minhas digitais, e no volume da tua boca ensaiei a última versão desse quadro que fiz no teu corpo, numa tinta de saliva, pra eu me emoldurar.
Você vai ficar bonito na parede do meu tempo. Escolhi um espaço onde não precisasse haver amanhã, e consegui, enfim, te eternizar.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
terça-feira, 25 de junho de 2019
Pores do sol
Ele me chama de moça dos pores do sol. E quem não gosta de ser associado ao Sol? Logo eu, leonina que sou. Eu coloquei um girassol no lugar do teu cinzeiro e escondi os cigarros que você insistia em usar pra se machucar. Imagino que você já tenha encontrado todos eles, e se machucado outras tantas depois disso. Da última vez que vi teu espaço cinza, o girassol tinha morrido. Eu sei que você tentou... Mas talvez as coisas morram mesmo quando se aproximam de ti. Aconteceu comigo...Entendo o girassol. Deve ser essa nuvem tempestuosa que tu coloca em cima da tua cabeça sempre, que afoga toda vida em redor, do mesmo jeito que tu te afoga, todos os dias, beijando as garrafas e bordas de copos nos bares da nossa cidade. Sim, eu sei, já disse, eu sei que você tentou... Não precisa se desculpar. Agora eu to ouvindo ele me chamar de moça dos pores do sol e percebo que você tinha razão... É mais bonito ouvir alguém dizer isso de graça. Se você tivesse dito, eu saberia que não era você... Porque você não é solar. Você é tempestade que faz barulho e desabriga, é chuva fina e molhada, que entristece e deixa com frio. Eu e o girassol sabemos disso. Desculpa ter saído sem avisar, mas você sabe que eu não sei nadar. Há mais sol aonde eu estou agora. Eu me sinto mais quente aqui. Preciso ficar neste lugar. Não consigo te ver desta distância, mas prometo torcer pro teu verão chegar.
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Três meses
Vai fazer três meses que você disse que me amava. Eu queria que fizesse só um dia. Porque quando fazia só um dia eu ainda acreditava. Era bom acreditar porque é disso que a vida é feita: de créditos.
Esses três meses duraram muito tempo. Tanto que quase já não lembro do som da tua risada. São doze domingos em que eu poderia ter deixado minha cabeça apoiada entre a tua axila e teu peito. Três meses que eu deixei de impregnar tua camiseta puída com o cheiro do teu próprio sabonete, porque eu nunca usei perfume aí. A lua já mudou de lugar tantas vezes e a Terra já rodopiou por noventa longos dias. A primavera foi embora e outro verão já veio se exibir.
Mas só faz três meses, porque teu nome ainda é feito tinta fresca, que mancha todo meu texto. Faz tão pouco e eu já não tenho medo de você se ler por aqui - não temos mais tempo pra isso. Eu tinha tanto pra me repetir, tanto pra te dizer de novo, mas não quero mais perder o tempo contigo.
Logo farão quatro meses e tantos mais que devam vir. Eu vou fazer as pazes com as horas, não importa o que eu faça, o tempo só passa pra gente poder ir.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Mais dez sessões.
O plano de saúde liberou dez sessões de psicoterapia. Sexta-feira foi dia de Reik, ela precisava reorganizar as energias. Os amigos chamaram pra sair. Fez sol. Dois novos contatos: divertidos, bonitos na medida, inteligentes. Ela deu risada e se distraiu. Seriado novo, roupa nova, um quilo a menos na balança, passaporte pronto... mas aí aquele cara passou por ela, na ida pro trabalho, e ele usava um perfume igual ao teu. Segunda-feira ela vai tentar mais dez sessões.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Depois daquele dia
Desde então, eu não me culpo mais por acordar cedo aos domingos;
Desde então, não preciso mais ansiar por uma semana, um convite bobo pra te fazer, por medo do teu não;
Desde então, eu lamento não ter que chamado pra ir na igreja aquele dia à noite, em que rezei por ti sozinha;
Desde então, eu entendo mais sobre o que eu gosto, e sobre o que eu me acostumo (crescemos juntos, afinal);
Desde então, eu sinto falta de maldizer teu fogão vagaroso;
Desde então, parei de me culpar por ter muitos amigos;
Desde então, eu quero te dizer que consertei o carro (e não foi tão barato quanto você disse que seria);
Desde então, eu lembro de você e meu coração sente diferente - não é saudade, é paz (bom pra gente, né?);
Desde então eu tenho mais certeza de que é preciso falar sobre o que se sente (você deveria tentar);
Desde então, eu me pergunto se você tá vendo o sol que eu vejo (e você adora, eu sei);
Desde então, eu ensaio formas menos egoístas de ver teu sorriso;
Desde então, torço para que me esqueça devagar;
Desde então, ficou mais fácil responder às pessoas se eu vou sozinha ou se você também vai (que cansaço me causava, acredita?);
Desde então não faço poema, porque não dói. Isso não é poema. É um emaranhado limitado (como eu me sentia ser); é uma cartinha ao pós amor que nunca fui. Mas desde então eu quero te escrever;
Desde então, escolhi não competir. No jogo dos sentimentos, quem começa já perdeu;
Desde então, fiquei aliviada em sair da superfície do meu sentir, ainda que isso tenha te assustado;
Desde então eu tô pra te agradecer. A verdade é que você sabia antes de mim, que eu fico melhor assim, depois de você.
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Arranhão
Outro dia arranhei meu pé esquerdo no carro da minha amiga. Ensaiei um pseudodrama encapado de palavrões que não vou reproduzir e finalizei: - "Merda, vai sangrar!" - "Não vai, não. Só vai ficar branquinho, não chega a sangrar. O que é pior." Ela disse, com razão. Algumas coisas precisam rasgar de vez, depurar. Você é meu arranhão branquinho.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
Tua voz.
Se resignação tivesse timbre, ela seria a tua voz. Começou comum, como quem anuncia às três da tarde num trabalho que vai até às seis. Depois foi ficando densa, apesar de aguda. Tu pensava enquanto dizia e, portanto, precisou calar. Tu me contou uma história que não queria contar e que eu não queria ouvir. Sei daquele dia que te doeu tanto que foi como se o próprio diabo te pedisse um canto na cama, e ficasse arranhando as tuas costelas frias.
Não tive coragem de apresentar meu otimismo, ele seria uma afronta, um deboche. Então eu fiquei com essa minha cara de tonta, admirando a tua coragem, engolindo tua tristeza pra tu sentir menos. Mulher, que escolhas são estas que tu faz com tanta dignidade que te custam alegria? Que agiota esse caminho.
O sol tava lá naquela praça, pintando a tua pele, eu sei. Teu sangue foi diluído, e teve aquela gargalhada que expôs toda tua arcada dentária. Os dias não passarão por ti, tu vais beber deles... eu sei, eu sei. A vida é uma obrigatoriedade. Mas, da tua voz... da tua voz eu não esqueço não.
Não tive coragem de apresentar meu otimismo, ele seria uma afronta, um deboche. Então eu fiquei com essa minha cara de tonta, admirando a tua coragem, engolindo tua tristeza pra tu sentir menos. Mulher, que escolhas são estas que tu faz com tanta dignidade que te custam alegria? Que agiota esse caminho.
O sol tava lá naquela praça, pintando a tua pele, eu sei. Teu sangue foi diluído, e teve aquela gargalhada que expôs toda tua arcada dentária. Os dias não passarão por ti, tu vais beber deles... eu sei, eu sei. A vida é uma obrigatoriedade. Mas, da tua voz... da tua voz eu não esqueço não.
domingo, 18 de dezembro de 2016
Merthiolate
Passei alguns dias sentindo dor. Física. Cólicas. Não as cólicas habituais. Meu limiar da dor é alto, mas desta vez, tive a impressão de que meu útero se contraia para parir um filho que não existia. Bem por isso, parecia não ter fim - não haveria nascimento, a dor não teria recesso. Eu caminhava contraída e segurava qualquer chance de cruzar as pernas ou ficar em posição fetal. Só queria que parasse de doer. Alguns remédios vãos e chás de mãe me serviam de placebo por alguns instantes. Doía. A dor, tal qual a alegria genuína, te desarma; te faz encontrar novamente a primitividade. A dor é um retrocesso numa escala de evolução em que todos vivem anestesiados. Quando se está com dor, não se faz sala. Foi ali, de bruços pelo terceiro dia consecutivo, que eu me dei conta disso. A dor entristece, fecha a cortina, como uma velha ranzinza, para qualquer sorriso que, teimoso, dê o ar da graça entre um esquecimento e outro. A dor é rival. Era o meu corpo, contra mim. Como se quisesse vingar todas as vezes em que lhe fui infiel. Não duraria para sempre, eu sabia desde que começou; mas eu esqueci disso enquanto ela pulsava e me oferecia uma calma estéril. São seis meses desde que estes dias aconteceram. Não sinto mais daquela forma. Dedico essas palavras a você, que dói agora. Vim aqui lembrá-lo que ela não durará para sempre. Que, por mais que não pareça, você será capaz de suportar. Não há necessidade de diplomacia. Suporte como achar melhor: com histeria ou silêncio. Logo vai acabar.
terça-feira, 3 de maio de 2016
"Quem já ligou pro vô?"
Vô, que saudade eu tenho de ti,
que nunca tive. Das vezes em que você nunca me colocou nas costas pra eu me
sentir grande - como você sempre quis que eu fosse.
Vô, não sinto o cheiro do teu
chapéu velho, herdado de uma vida que você não tem mais; mas reconheço nele a única
prova física de que você um dia teve força nesse corpo arqueado pelo tempo. Não
lembro dos teus braços flácidos, que eu arranharia com as minhas incompetentes
unhas de papel, enquanto você fingiria não se emocionar.
Eu sinto falta dos momentos que
nunca tivemos; das vezes em que você reprovaria minha tentativa cômica de
chutar uma bola, dizendo que é coisa de menino. Sinto falta dos teus
pré-conceitos, que eu nunca ouvi, e que hoje nos fariam discutir nos almoços em família... Eles
seriam finalizados com a clássica sentença: “esses jovens de hoje tão virados”.
Eu nunca deslizei meus dedinhos viçosos nos sulcos da tua pele, e nunca ouvi
tua gargalhada cheia de dentes de mentira, ao me ensinar a falar um palavrão.
Sinto falta das histórias que você nunca me contou, e falta de fingir que eu
acredito nelas.
Sinto falta de ouvir você dizendo que me ama, no silêncio do
teu palheiro.
Eu sempre achei ter sido melhor
assim. Não senti tua partida porque você nunca veio. Mas ainda há em mim algo
de ti: a ausência. Há esse vácuo no tempo, ladrão de memórias... Memórias que
não tive, mas invento todo dia, como forma de te trazer mais perto, onde você
nunca esteve.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Moonwalk
Ele dançou moonwalk ao som do John Mayer; mas nunca
precisou disso pra chamar minha atenção. Tinha o cabelo amarrado, numa
modernidade que contrastava com o jeans puído de quem acabou de sair do ensino médio.
Não deveria ter muita idade. Por informação prévia, eu sabia que aquela pequena
que o acompanhava no retrocesso dos passos de dança, já recebeu dele alguma
coisa que não sei bem o quê era, mas que eu queria pra mim. Os meus olhares
furtivos invejavam a fluidez pueril dos dois. Ela era desprendida, como eu
desaprendi a ser; possuía o peso do que não lhe foi lapidado, o que a deixava
ainda mais leve; e era de um erotismo serelepe, compactado na pouquíssima altura.
Ele era lindo. Não por simetria dos traços, mas porque suava uma bondade intrínseca
e uma melancolia escondida, e soava uma risada frouxa, embora contida. A luz
verde do bar fracassou ao tentar me confundir e salvar, mas não era necessário.
Eu sabia que não caberia naquele cenário, senão na plateia. Aquele viço de quem
pouco se preocupa, me deixou anos antes, enquanto eu ia perdendo coisas e
pessoas. Eu já havia desistido daquela liberdade sem vergonha. Entrei, resignada,
numa forma que, para caber nela, foi preciso cortar pedaços importantes que
transbordavam de mim, e cujas ausências ainda se fazem presentes. Aqueles dois,
na sua dança, embarraram nas minhas cicatrizes e elas voltaram a latejar. Eu
queria voltar a prestar atenção no colega barbudo com quem falava sobre a dificuldade
do mercado de trabalho, mas precisava permitir que o rapaz com rabo-de-cavalo
que me roubou intenções lascivas, me lembrasse em silencio sobre essa forma em
que não caibo mais.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Finalmente.
Agradeço as vezes em que te fui fiel, embora me causasse uma
aguda pequenez orgulhosa, estes tantos momentos em que te presenteei com meus
pensamentos. Não me liberto da tua saudade, mas não vejo nela mais do que um peso leve e agridoce de se levar. Resignei-me. Por obrigação, obviamente,
e não sem a dor de recusar teu afeto, reconhecendo o cansaço que me causas.
Sempre farás das minhas linhas, tuas. Somente em troca do sentir mais incondicional que meu coração já concebeu. Sempre perceberei nos teus rompantes
insanos, um pedido de ajuda que eu nunca consegui negar, mesmo quando neguei. O
teu segredo me mantém alerta e me manda sinais ásperos de que tu me precisas,
ainda que não me queiras. Por essa ligação sutil e profunda, pelo teu gostar
fluído, por esse nosso limbo sublime, pela nossa ausência velada, me retiro com dignidade – ainda. Vou-me
para que tu entendas todo meu amor. Finalmente.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Sobre quem vai.
O barulho enferrujado e antigo que a porta fazia quando ele
entrava, só fazia com ele. Os sapatos marchando escada acima, sem ver, ela já
sabia que calçavam os pés dele. A discussão pelo controle remoto, cujo fracasso
dela sempre era anunciado com um sorriso quase perverso, só existia com ele. O
chuveiro pingando daquele jeito, só ele conseguia deixar. Os pães mais branquinhos pra ela, só
ele se esforçava pra guardar. Os seus dedos, irritantes, estalando, só o olhar dele
sabia calar. O perfume bom, só ele sabia dosar. Os ruídos todos, que ninguém
mais faz, os cheiros todos que ninguém mais exala, causam medo aos seus ouvidos
e nariz, que nunca entendem de esquecimento.
Havia algumas contas a serem pagas e uma breve viagem marcada.
Havia comida na geladeira para o jantar e roupas sujas do futebol de domingo,
bagunçando a área de serviço. Havia um
silêncio cúmplice no lugar desse deserto mórbido em que a sala se transformou. Por
enquanto, não há mais nada. Os sentidos dela ainda se aguçam, mas murcham
perplexos com os gritos da ausência. Será assim por enquanto. Não haverá mais
brigas, nem esperas, nem divisões. O café vai esfriar enquanto ela gira a xícara
com o dedo indicador, a louça vai tomar a pia e a poeira, todo o espaço. Haverá
poeira nos livros, no controle remoto, haverá poeira na cama, e no coração. Haverá
poeira enquanto não houver tempo suficiente. E talvez nunca haverá.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Diálogo
O corredor tava mais comprido do
que o normal. É sempre assim quando eu tenho pressa. O toc toc frenético e
proibido dos meus sapatos deve ter te chamado a atenção. Frente a frente, e
quase dentro daquele abraço que você insiste em me afogar, te ouvi: “Oi. E aí,
tudo bem?”. Puxei o ar pra dentro do peito, pressionei levemente os lábios,
dei uma longa piscadela e arrisquei: “É uma pergunta retórica ou você quer
mesmo saber?”. Te peguei de surpresa. Por educação, você disse: “Quero mesmo
saber, oras”. Era mentira, mas eu ignorei. Engoli a saliva gelada, como quase
todo o resto do meu corpo e, com a respiração descompassada, lancei: “Na
verdade, não está tudo bem. Não está bem porque não aguento ter tanto pra te
oferecer. Se você soubesse o quanto eu quero te fazer bem, não agiria com essa displicência.
Eu te enxergo devagar enquanto um monte de gente de olha correndo, e, cá entre
nós, até meio maluco te acham. Eu entro na tua maluquice e consigo achar ela fofa. Eu
poderia te ouvir por dias sem sequer olhar para o celular. Só que eu vejo a
gente indo embora um do outro sem nem ter conseguido chegar e só consigo lamentar
profundamente por isso. Porque eu quero te encontrar! Não assim, pelo corredor,
mas encontrar aquilo que até você mesmo vem procurando, e quero deixar que me procure
também. Se você acha que eu to viajando, por favor, fala alguma coisa. Eu vou
te deixar ir e aceitar todos os teus motivos, mas você vai precisar parar de me
confundir. Eu queria que você ficasse, mas não to te pedindo isso. Só quero que
você deixe as coisas mais claras; é algo que venho querendo fazer na
minha vida e na vida dos outros: clarificar. Sem adivinhações, sem penumbra. Só
quero o que é bom e de verdade, porque é o que eu tenho nos bolsos pra te
dar. Espero que você não demore pra entender tudo isso e venha logo. Ou siga em
frente de uma vez. Só não fique no meio do caminho, por favor. É isso. E
contigo, tudo bem?” (...)
Você continuava na minha frente, escondido atrás dos óculos e com aquele sorriso tímido
refletido em mim. Tornou a perguntar: “Tudo bem?”. Acordei do sopor, puxei o ar pra dentro do peito, pressionei levemente os lábios, dei uma longa piscadela e disse: “Tudo. Tudo certo. E contigo?”. “Também, tudo certo.” “Então tá, até mais.” “Até”. E retomei o corredor sem fim.
domingo, 15 de junho de 2014
ZzzzZzz
Usei a backspace algumas vezes. Corrigi minhas sinceridades; enfeitei
a verdade pra te entregar mais bonitinha do que quando você me emprestou. Mas eu tenho que te dizer: Eu fiquei com
preguiça de continuar. Preguiça de pensar em ti e até de te escrever. Estas
talvez sejam as últimas palavras ditas por mim, das quais você é dono. Tem sido
tedioso te buscar todos os dias pra dentro da minha cabeça. Era divertido até
agora a pouquinho, enquanto colocávamos nossas luvas de pelica para mais um
round. Mas você sempre vence porque eu sou uma péssima jogadora. Você lança
suas teorias sobre mim, eu não concordo, mas aceito te ter por perto, mesmo
assim.
Percebi que os sopros que nos oferecemos para encher nossos egos é o
que nos mantém próximos. Mas agora tem me faltado ar. Eu sinto muito, de todo
coração, que você tenha pensado demais sobre isso; não teria te contado tudo o
que eu sentia. Minha razão lamentou o meu descuido e espero que você me perdoe e
que meus sentimentos não pesem tanto... Mas eu tinha que devolvê-los, sabe?
Estavam ocupando muito espaço mesmo não sendo tão grandes. Não são grandes, mas
desajeitados. Desajeitados feito as muletas que somos um para o outro.
Precisamos aprender a caminhar sozinhos, do jeito que você gosta, mas não sabe
ser.
sábado, 31 de maio de 2014
Por falar em saudade.
Eu também quis fazer poesia com a saudade, mas dessa vez ela
não era dramática, não sangrava. Dessa vez, ela ficou com vergonha das minhas mil
atividades diárias e resolveu não exigir muita atenção. Percebeu-me sem muito tempo para nos relacionarmos. Dessa vez, a saudade se
colocou, enfim, no seu lugar: ela dançou as nossas músicas, surfou nos cheiros, riu daquela ode que fizemos juntos, constrangeu-se com as fotos antigas, preencheu o espaço entre o apagar da luz
e a chegada do meu sono. Quando ensaiou doer, e exercer assim sua principal função, obedeceu-me sem pestanejar. Não usou meu celular, não colocou
palavras na minha boca, não jogou confete em nenhum silêncio e não fez
brigadeiro. Ela estava só, e só. Foi elegante, uma verdadeira dama, nada de
histerias e efusividades, um poço de sensatez! Preocupo-se comigo, na verdade. Eu, agradecida,
diante de tantas ausências, dessa vez, fiz questão da sua presença. Dessa vez.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Calça curta.
Acho graça de mim cada vez
que tu chegas. Se tu olhas, eu desvio, quase entro no freezer cheio de
Coca-Cola; encontro qualquer coisa pra tentar empalidecer meu rosto novamente e dissolver o constrangimento rubro que me pinta. Quando
tu te distrais, eu te recorto inteiro, e embaço o fundo pra te ver melhor. Quando
percebo, já to rindo sozinha do teu cabelo desajeitado, e dos teus pés que
andam em direções opostas. Também acho graça da maneira que tu falas, confesso. Mas eu
sempre ignoro; ignoro porque não ouço mais a forma quando ela se faz em conteúdo educado e simpático... E lá vou eu te colocar de
novo no meu sorriso idiota. A tua pele também já foi alvo da minha admiração. Ela
fica rosa quando é frio demais, ou quando é calor demais. Mas quando abraçou teu colega, eu nem reparei de que cor tu ficaste, eu
só vi o abraço. Se eu pudesse, te diria pra não usar mais aquela camisa verde. Eu
a notei logo de cara, mas ela sumiu quando você foi gentil com aquelas pessoas
que estavam ao teu redor, e quando tu, sem saber, me deixaste passar na tua
frente na fila da lanchonete. A verdade é que eu te admiro antes de te amar e
isso sim é um terreno perigoso. De amor eu dou conta, engulo, mastigo... Mas
admiração me pega de calça curta. Por favor, não seja mais tão legal. Se puder,
peça pra alguém falar mal de você pra mim, quem sabe assim deixo de calcular teus
horários pra te encontrar. Sorria menos
também, tá? Não me cumprimente mais mesmo sem me conhecer. É cansativo pra mim.
Sinto um pouco de raiva de ti por isso. Mas de raiva eu dou conta, engulo,
mastigo... a admiração é que me pega de calça curta.
domingo, 6 de abril de 2014
Dos nossos excessos.
Falei mil vezes sobre as nossas diferenças querendo encaixar um pouco de curiosidade na gente. Fracassei. A verdade é que precisei, enfim, reconhecer o acordo tácito que fizemos, desde o começo,
sobre as semelhanças inúteis que temos. Nunca poderemos firmar um tratado de
completude, de somar com aquilo que tens demais, para aquilo que me falta. Tudo
que me sobra, esparrama de ti também. Aí a gente fica com mãos sujas da gente
mesmo, e corre, um do outro, porque não tem nada a acrescentar. Tudo que eu
poderia te dar, tu faz doação em campanha, porque já não tem onde guardar. Tudo
que tu terias pra presentear a minha vida, eu deixo apodrecer em sacolas na
despensa de casa, numa oferta que sobrepõe a procura e barateia nossa permanência
na vida um do outro. Talvez por isso tua ausência me soe tão presente, ela sim
faz sentido. Somente quando não estamos juntos tu me acrescentas alguma coisa. A
saudade que sinto me faz melhor e oferece a única coisa que não tenho de ti: tu
mesmo. Quando tu estás, eu me farto de tanto nós. Encho das nossas sandices e saio
cansada como um moleque ao fim de um dia de praia. Quando tu não estás é que
finalmente tu te apresentas na minha vida de maneira mais cheia de paz. Quando
tu não estás eu não preciso te entender, nem me cansar, nem transbordar. Quando
tu não estás eu tenho o melhor de nós. Eu gosto de perceber tua ausência, é a
maneira que o mundo encontrou de nos deixar juntos sem causar danos, já que de
outra forma a gente explodiria por excesso. Por excesso de dor. Por excesso de alegria.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
No novo não.
Queria ter te enviado uma
mensagem de final de ano. Um sms qualquer, discreto, como de costume, mas com
aquele luminoso que denuncia a tua importância pra mim. Queria ter te desejado
um natal bom, um ano novo massa. Queria ter pensado minuciosamente nas palavras,
as interpretado das mil formas que eu imagino que você interpretaria, pra
fracassar de maneira digna. Mas eu não enviei. A operadora do celular não foi o
problema. Eu só não enviei mesmo. Não enviei porque você não sabe ser gostado.
Você fica pequeno e acha que te querer bem é um problema meu. Você devolve
minhas palavrinhas e carinhos todos naquele saco de indiferença que costurou
com a minha sinceridade. Burrinha ela, a minha sinceridade. Você usou aquele
espanador com penas de mim e foi varrendo minha vontade pra debaixo daquele
tapete vermelho que eu jogo quando você passa. Eu agora cerro os lábios, ainda
perco para os olhos, mas a boca eu fecho. Engulo meu afeto em formato de
ouriço-do-mar e te deixo ir... Você sempre quer ir.
Eu nunca te abri a porta, mas enfeitei ela toda com as estrelinhas que saíam do meu olhar quando você dizia aquelas coisas bonitas pra mim, pra que você ficasse mais a vontade pra entrar, puxar uma cadeira, esbarrar no meu colo e fazer dele um bom lugar. Acontece que eu já guardei as xícaras e não compro mais o pão que você adora. Não teço mais uma colcha de pontos de interrogação para que você me cubra todas as noites. Aposentei as canetinhas coloridas com as quais eu descrevia esse meu trabalho voluntário, que é gostar de você. É a coisa mais altruísta que já fiz na vida: gostar de você. Mas se me perguntar, eu minto. Minto até virar verdade. Porque meu gosto ainda está agarrado na lembrança, e se posso lembrar, também posso esquecer. Na verdade, hoje eu não te gosto. Te gosto ontem. Quem eu sou hoje não gosta de você, porque você hoje parece não gostar de ser gostado. Você desaprendeu a construir e só fica na sombra, enquanto eu estou com o lombo no sol. Minha pele tá ressequida, precisando de água limpa, saliva nova, novidade. Mas aqui ainda sou eu de ontem e você de ontem e nós de ontem. Talvez por isso eu não tenha te mandado uma mensagem de ano novo... É no tempo passado que melhor te conjugo. No que é novo você não cabe.
Eu nunca te abri a porta, mas enfeitei ela toda com as estrelinhas que saíam do meu olhar quando você dizia aquelas coisas bonitas pra mim, pra que você ficasse mais a vontade pra entrar, puxar uma cadeira, esbarrar no meu colo e fazer dele um bom lugar. Acontece que eu já guardei as xícaras e não compro mais o pão que você adora. Não teço mais uma colcha de pontos de interrogação para que você me cubra todas as noites. Aposentei as canetinhas coloridas com as quais eu descrevia esse meu trabalho voluntário, que é gostar de você. É a coisa mais altruísta que já fiz na vida: gostar de você. Mas se me perguntar, eu minto. Minto até virar verdade. Porque meu gosto ainda está agarrado na lembrança, e se posso lembrar, também posso esquecer. Na verdade, hoje eu não te gosto. Te gosto ontem. Quem eu sou hoje não gosta de você, porque você hoje parece não gostar de ser gostado. Você desaprendeu a construir e só fica na sombra, enquanto eu estou com o lombo no sol. Minha pele tá ressequida, precisando de água limpa, saliva nova, novidade. Mas aqui ainda sou eu de ontem e você de ontem e nós de ontem. Talvez por isso eu não tenha te mandado uma mensagem de ano novo... É no tempo passado que melhor te conjugo. No que é novo você não cabe.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Instante Grande.

Ele disse que não queria mais viver. Alguns
processos de hospitalização e luto são bastante clássicos, mas eu não estou
aqui para falar de psicologia. Eu quero falar é do que eu senti; E senti que diante da face
da morte, nada, absolutamente nada, é tão importante. Bem óbvio, entendo, mas me
deixe contar: Um senhor caiu da carroça com que trabalhava. Fraturou a coluna,
ficou tetraplégico. Machucou a perna e, devido à diabetes, precisou amputá-la.
Há alguns dias ele estava trabalhando, firme. Agora estava diante de mim,
emagrecido, astênico, apático. Ele era de uma simplicidade cativante e de uma
tristeza comovente. Durante seu discurso contido, uma frase sobressaiu às
outras e, confesso, num ato egoísta, demorei para voltar a entender o que ele
continuava dizendo, tamanho meu choque. Ele disse, num sopro que saía do vão
que existia entre alguns dentes, e com a imponência de quem não tem mais nada a perder: “A vida é coisa tão bonita, né?”. Eu calei.
Ofereci-lhe o silêncio merecido depois do impacto de uma constatação tão
simples. E, mesmo embebida em toda aquela atmosfera do sofrimento dele, a parte
triste da história vem agora... Eu me senti do tamanho de uma ameba. Corei. Fui
para casa agradecendo o soco no estômago e, enquanto refletia sobre as “coisas
da vida” e suas fragilidades, pensei que havia dado um passo adiante na
tentativa de ser alguém mais espiritualizada e menos materialista. Aconteceu
que alguns dias passaram, meus pobres probleminhas continuavam lá, e foram
turvando a frase “a vida é coisa tão bonita, né?” da minha memória. Há um efeito
sanfona na alma. Num ato inconsciente, voltei a ser pequena. Esbravejei por
causa da antena da TV, lamentei alguns quilinhos à mais, reclamei das contas à
pagar e praguejei a semana longa e cheia
de trabalho. Aquele senhor me daria com as muletas nas fuças se pudesse me ver
agora. Torço para encontrar novos mentores como ele, até que eu aprenda algo
enfim. Ele sabia que cada um de nós é capaz de dar pesos diferentes aos mesmos
fardos e que a dimensão das nossas alegrias e tristezas não devem,
necessariamente, ser calculadas com nenhuma base externa... Mas, ainda assim, tê-lo
visto naquele momento de lucidez tamanha (ainda que envolto em dores da carne e
da alma), dissolveu, pelo menos por um instante, a minha miopia diante da vida.
E que grande instante foi aquele, senhores, que imenso instante.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Sobre o que deixar.
Ainda não me acho alguém de
muitas experiências. Tenho meus tropeços, minhas lágrimas e meu gozo. Como todo
mundo. Minha história não é mais especial do que a de qualquer cidadão que
tenha vontade de perder um tempo lendo essas minhas linhas. Bem por isso, não
me acho digna de tecer grandes conselhos e frases de efeito. Não tenho
respostas, lamento. Invejo os grandes espíritos que sabem deixar seus
ensinamentos de maneiras simples, mas com uma força capaz de tatuar, na cabeça
ou no coração dos ouvintes, algo que sirva pra viver. Bem, pelas minhas contas
talvez eu precise do dobro do tempo que tenho nesta vida pra conseguir dizer
algo que realmente valha à pena e seja ressonante. Mas, se eu não tiver esse tempo, nem filhos,
nem netos para me ouvir, por ora, gostaria que lembrassem de mim como alguém
que achava bonito ser honesto. Não falo do troco devolvido quando recebido a
mais, nem de pagar as contas em
dia... Isso é obrigação. Acho bonito gente que é honesta com o
que sente, e com o que faz os outros sentirem. Gente que levanta a bandeira da
empatia, e consegue se indignar com a falta dela; que cuida com respeito de um
coração que lhe foi dado. Gente que, mesmo escondendo o que sente, entende que
seu segredo é preciso tamanha responsabilidade. Gente que não joga no colo do
outro uma culpa que ninguém tem, porque é honesto. É lindo ver um amigo sendo
honesto; mesmo que ele se embasbaque, mesmo desajeitado; ele sabe que viver a
verdade pode ser desconfortável às vezes, mas sabe também, sobretudo, que ela é
um remédio necessário, um remédio que cura, limpa e emagrece. Eu queria mesmo que vocês fossem honestos, que não permitissem leviandade, mas que a
perdoassem, se puderem. Eu vou continuar tentando, prometo. Os honestos pagam
caro, mas entendem de custo/ beneficio. Se formos honestos, a gente só erra
tentando acertar; se formos honestos, sempre haverá perdão... E enquanto houver
perdão, estaremos livres.
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